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O abraço da partida

sexta-feira, agosto 13th, 2010

Não existem palavras, línguas, gestos ou mesmo pensamentos que possam expressar a dor da perda. Ela é tão profundamente dolorida e fere a alma com esmero desmedido, cortando lenta e dolorosamente com o lado cego da faca.

A dor é fenomenal, incrívelmente dor, extraordinariamente dor, fatalmente dor. É dor, dor, dor, somente dor. E não cede, não acalma, não dá trégua. E a alma se contorce, revolve, chora, berra e geme em lamentos surdos, que tomam o corpo, que fazem cambalear e entontecer o espírito.

A dor da perda não tem som, não tem voz, e invade o âmago do ser silenciosa e cruelmente fazendo doer e adoecer o corpo. Massacra a alma a tal ponto de tudo ao redor perder o sentido. Tudo. Tudo perder o sentido e o brilho da vida.

Os olhos olham mas nada vêem, os ouvidos ouvem sem nada ouvir, os braços caem sem sentir qualquer amparo, qualquer sussurro de compreensão, de entendimento. Somente o gosto do sangue da dor é percebido no fundo do coração que sangra, falece e se afunda no fundo da terra, do pó.

E tudo vira dor profunda e cortante como o fio de uma navalha. Os sentidos perdem a razão de ser. Robotizamos o corpo e caminhamos, perdidos e anestesiados de lá prá cá, de cá prá lá, desnorteados, confundidos, atordoados e completamente perdidos de nós mesmos. Esquecidos de tudo e de todos, menos da dor que rasga, dói e arranha o coração até o sangue jorrar em lágrimas profusas e gritos inaudíveis.

A dor da perda cala fundo e faz sepultura da alma onde desejamos ardentemente nos enterrar, em silêncio absoluto, em escuridão infinda, em adormecer eterno. Faz desejar a morte e buscar o fim de tudo, inclusive de si mesmo, para calar… a dor…

Não existem palavras que definam a intensidade da dor da perda. Ela é tão incrivelmente dor que perdemos a definição e a expressão do que sentimos. Nada mais importa. Nada. A dor da perda é pesada demais. Impossível de se carregar solitariamente.

Por isso, por tudo isso, havemos de buscar forças para suportar a dor da perda, por mais profunda, pungente e dolorida que seja, por mais aterradora e insensível…

Havemos de nos resguardar da dor, de acordar e lutar para viver, mesmo a alma em soluços, mesmo que o espírito, anestesiado pela dor, perca a vontade de lutar e continuar a viver… havemos de nos resguardar da dor no alento dos braços do amor, que é o único que torna possível tudo, por ele, com ele, suportar…

À mim e a todos que nesta semana – ontém – choramos a perda sentida de uma de nossas maiores referências.

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Força João, Cissa e Thomaz.

quarta-feira, julho 21st, 2010

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,

Evitem o latido do cachorro com um osso suculento,

Silenciem os pianos e com tambores lentos

Tragam o caixão, deixem que o luto chore.

Deixem que os aviões voem em círculos altos

Riscando no céu a mensagem Ele Está Morto,

Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,

Deixem que os guardas de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Minha semana útil e meu domingo inerte,

Meu meio-dia, minha meia-noite, minha canção, meu papo,

Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas;

Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;

Esvaziem o oceano e varram as florestas;

Pois agora nada mais de bom nos resta.

W.H.Auden

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Feliz Dia dos Amigos!!

terça-feira, julho 20th, 2010

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outro s afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências …

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles.

Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.

Se todos eles morrerem, eu desabo!

Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.

E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

(Vinicius de Moraes)

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De como eu perdi o medo de voar

quarta-feira, junho 23rd, 2010

Nas agruras da vida suburbana encontrei um porquê para minha existência.

Encontrei você na época certa, à 1h30 de uma quarta, no Orbital, na Rua Augusta.
Festival de Hardcore.

E o nosso amor foi e é assim… indescritível, ilimitável, irrefreável… Não é só sentimento, mas também toda a ação que nos envolve, todas as mudanças físicas e psicológicas que nos rodeiam… 10 anos que narram essa história.

Nascemos todos com vontade de amar. Ser amado é secundário. Um amor não pode pertencer a duas pessoas, por muito que o queiramos. Mas no nosso caso, isso é possível. Nossa história é diferente. Nós somos um casal diferente.
E nossos dias são assim.. deliciosos, compartilhados, cansativos, corridos, divididos, mas no fim do dia, o que mais nos motiva, são nossos momentos de conversa, risadas, cumplicidade. Ah que companhia boa!! Eu posso não olhar para o relógio, mas conto cada segundo sem você. E quando você chega, nada mais importa, o relógio não existe, mas se existisse seria inútil também. As outras pessoas? Agora não. Só você. Nem eu mesma existo, apenas você… Nenhum outro som é audível senão o das suas palavras… Nenhum outro sentimento chega perto de mim, senão o seu sentimento, e nenhum outro sentimento importa, pois o que tenho no peito está explodindo, mesmo sem eu perceber… Pois nada percebo, nem mesmo a explosão no peito, nem mesmo sei se é mesmo no peito que está o coração, às vezes o sinto no joelho, às vezes só o ouço bater sem senti-lo.. Mas a única coisa que importa: é te amar.
Você me surpreende como  Pai, marido, amigo, companheiro.

Tenho visto as pessoas confundindo o que é o amor, misturando com paixão, com sexo, com pornografia, com traição, com assassinatos, separações e assim por diante. Os casais de hoje tem dado valores distorcidos, cheios de ganância, cheios de “auto-prazer”, cheios de sentimentos pobres, maquiados com o amor, lotados de falsidade.
Amar é se dar pelo outro, investir tempo. Se dedicar, vencer desafios e superar limites.  Somar na vida de alguém e fazer a diferença, colorir uma vida monocromática e respeitar o próximo em suas falhas. E você tem sido esse cara.
Obrigado por fazer parte de mim, antes, agora, amanhã e sempre.
Obrigado por existir com tanta força agora, como marido, pai, amigo, cúmplice. Obrigado por fazer minha vida mais feliz. Obrigado por ser o companheiro mais especial e amado. Obrigado por ser meu marido. Por favor, nunca vá embora…

TE AMAMOS! 

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Chico sempre Chico!

terça-feira, junho 1st, 2010

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Palavras de Kapjêre Jõpaipaire

sábado, maio 22nd, 2010

Quem mais sabe do equilíbrio da natureza do que os índios?

Entrevista com índio parkatêjê paraense sobre mudanças climáticas:

“No verão esquenta e a água sobe; o corpo está quente e a água sobe; de noite esfria e volta de novo a água no corpo da gente. O calor da
água está em tudo: em nós, na madeira, nas plantas e sobe e vai juntando. Forma nuvem. E quando está no dia da chuva, cai pra nós bebermos,
para os animais, para as plantas…

A madeira (o mato) é nosso pai, dá a produção pro filho comer e defende a gente. A terra diz: ‘Eu sou a mãe de vocês; agora vocês têm que me
gostar e me usar para viver.’ A terra é nossa mãe – cria a gente. A terra quer que a gente produza para comer. A terra – não sabemos de
demarcação – não tem limite, é aberta. Índio anda 60 quilômetros num dia. Mato diz pro filho: ‘Olha, filho, eu vou me produzir pra você
comer, mas você tem que me olhar e não deixar me prejudicar.’

O céu é nosso irmão mais velho. Ele manda na chuva e manda a chuva pra nós, pra beber, molhar as plantas, criar peixes, tomar banho, lavar…

A mata é um lençol para nós, por isso índio morava na mata. É saúde.

O sol é forte, traz doença e o vento carrega a doença pro mundo (não é só para o índio); a mata atrapalha o vento e não deixa passar a doença.

Agora não tem mais mata. Por isso está aparecendo muita doença.”

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MINHA MÃE, MEU MUNDO

sexta-feira, maio 7th, 2010


Abrir mão de sua missão, do seu maior propósito e, muitas vezes, do seu sonho, para dedicar todo o seu tempo à outra vida. Quanto vale isso? Muitos de nós poderíamos responder que jamais venderíamos, doaríamos ou repassaríamos qualquer oportunidade de concretizar um sonho. Mas, não esqueça que uma pessoa já fez isso por você. Uma pessoa que te conhece de um jeito todo especial, e faria qualquer coisa para te ver feliz. Ela também tinha metas, objetivos pessoais e profissionais, mas quando você chegou nada mais importava. Nada além da realização de suas vontades. Essa pessoa atende por um nome, MÃE.

Sabemos que a cada dia nossa vida está mais corrida. Por este motivo, quase sempre estamos em falta com alguém: as pessoas que não vemos há tempos, o telefonema que não conseguimos retornar, o café que prometemos tomar com aquele amigo e vai deslizando no limbo da agenda de uma semana para outra e tantas outras atividades são deixadas para depois. Só que, no fim das contas, dá tudo certo. “Afinal, os outros também estão na correria e irão me entender”.

Mas mãe não é uma pessoa que podemos deixar para depois, e existe uma razão muito simples para não fazê-lo: ela, durante toda a vida, nos colocou em primeiro lugar. Fomos e sempre seremos sua eterna prioridade mesmo que você já tenha crescido. Duvida?

Experimente surpreendê-la com uma visita inesperada no meio da semana. Ela é capaz de deixar o jantar queimar de tanta alegria, esquecer da novelinha das seis que lhe faz companhia nas melancólicas tardes cotidianas ou desmarcar imediatamente qualquer eventual compromisso com a melhor amiga só para ficar uma horinha com você.

É comum esquecermos, na correria diária, quem é a pessoa que merece nossa maior gratidão. E mais, acabamos tão acostumados com o paparicar constante das mamães que deixamos a nossa vida torne-se a delas. Como se não existisse algo mais importante, fazemos pedidos, choramingamos atenção, exigimos ajuda em muitos afazeres, cientes de que ela não negaria um chamado do seu filho.

Desta forma, devemos nos atentar que, por muitas vezes, ela deixa de seguir o seu caminho para nos ajudar a trilhar o nosso. Quantas mães já deixaram uma oportunidade de emprego ou alguma proposta importante passar para se dedicar ao seu filho? E as tantas mães que abrem mão de seus desejos para satisfazer os nossos? E tantas outras que quase enlouquecem tentando conciliar ambas as tarefas? Muitas dariam a sua própria vida em prol da nossa. Um amigo me disse um dia que a mãe dele estava ficando velha. Subitamente respondi que não, ela não estava envelhecendo, ela estava permitindo que ele seguisse seu caminho sem tanta ajuda dela, tanta proteção.

Diante dessa proporção de amor, resta saber se estamos devolvendo todo esse sentimento na medida certa. Você já agradeceu sua mãe por tudo que ela já fez por você? Já pediu perdão por ter sido impaciente e desatencioso algumas vezes com ela? Já ligou para ela nesta manhã para dar apenas bom dia? Quando foi a última vez que você declarou sua gratidão e disse para ela EU TE AMO?  fomos e sempre seremos a eterna prioridade de nossas mães. Ela nos faz enxergar os pequenos milagres diários da vida e além de nutrir, amparar e cuidar, ela educa a nossa alma e nos ensina a ser quem somos. Por isso, não deixe passar um minuto sem reconhecer a sua presença e dedicação, pois é ela quem sempre está ao nosso lado quando mais precisamos, quem nos dá apoio e incentivo nos momentos de fraqueza, quem nos compreende e nos perdoa até em nossos maiores erros, quem nos conforta apenas com um olhar doce e generoso sem nenhum julgamento, apenas para nos ver felizes. Para buscar recompensar minha mãe diante de todos os sacrifícios que ela se submeteu por mim, digo para eu mesma todos os dias que minha mãe é meu mundo. E a sua, o que é para você?

Mãe, EU TE AMO!

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VOLTA DELLOKI!!!!

quinta-feira, abril 29th, 2010

NÃO VÁ SE PERDER POR AÍ…

VOLTA DELLOKI!!!!!

PARA O SEIO DE SEUS AMIGOS!!

PARTICIPE VOCÊ TAMBÉM DA CAMPANHA VOLTA DELLOKI!

DIVULGUE!!!

http://www.websofa.com.br/ondeestara-delloki.htm

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VIÚVAS E PERIGOSAS

domingo, janeiro 10th, 2010

Um Roteiro de

J.Olímpio

Copyright © 1998 by J. Olímpio

Todos os direitos reservados

Cx.Postal:7297-CEP:80001-970 Curitiba – PR Brasil; tel.(041)335-9744

E-mail: jolimpio@mais.sul.com.br

 

Música: “Maxixe das Viúvas”

Seqüência 1

(exterior – dia)

Numa longa fila de pensionistas do INSS, Marli e Leonor parecem protestar.

MARLI:

- Mas o que é que esses homens do governo pensam que a gente é, hein?… Uma escola de samba falida e mal-paga, de carnê na mão?!!… (cochichando, maliciosa, p/ Leonor) … Vamos agitar um pouco essa pasmaceira…!

LEONOR:

- … É isso mesmo, qual é a de vocês aí, ó do guichê da fome!… Vão ou não vão liberar a micharia?!… (gargalhada mal-contida)

O povo da fila começa a se agitar e a apoiar a reclamação das duas.

O vigilante da agência se aproxima e aborda as velhotas.

VIGILANTE:

- Ô, minhas tias, peguem leve… As senhoras estão perturbando a calma da terceira idade aqui reunida…! ( p/ todos) Olha aí, meu povo, cada um cuidando de sua senha que, na hora certa, todo mundo vai receber direitinho a pensão…

LEONOR (quase cortando):

- Pensão? Você chama essa esmola de pensão??!… Tá brincando com a minha pressão alta, meu filho?!… E se sobrar alguém vivo até a hora de receber, acaba gastando tudo na farmácia…!

MARLI:

- Sabe desde que horas a gente está nessa sauna de pobre aqui, rapaz?… Desde as seis da madruga…! (em tom de discurso) Isso é o maior desrespeito à dignidade e aos direitos do trabalhador aposentado brasileiro!…

A fila toda aplaude e o descontentatmento se generaliza. O Vigilante recua e confabula com o pessoal do guichê. A gritaria aumenta. Pessoas da fila brandindo os carnês e exigindo pronto atendimento. As duas agitadoras insuflam o povo, demonstrando convicção e parecendo realmente indignadas.

corte

Seqüência 2

(exterior – dia)

A balbúrdia se acalma, as velhotas começam a “ceder” seus lugares na fila, em troca de pequenos favores.

MARLI (p/ o próximo da fila):

-… Mas olha só, que pena!… Desde as cinco da manhã?… Por que o senhor não troca de lugar comigo? Eu posso agüentar… Não, sem problema…! A gente tem mais é que se ajudar, né?!… Afinal, é só um ônibus a mais que vou tomar.

HOMEM:

- Toma aqui um vale-transporte pra senhora e que Deus lhe pague a gentileza…

MARLI:

- O quê? Pra mim?!… Ah, que gentil, o senhor não precisava se incomodar!… Bom, o caso é que a gente precisa mesmo, né?…

A câmera focaliza duas vagas adiante…

LEONOR (p/ uma senhora obesa, atrás dela):

-… Ah, mas é um sofoco ficar nesse sol a manhã inteira, a senhora deve estar morta de calor e de fome!… Por que não pega um chocolatinho?… Aliás, a minha sobrinha faz uns leques tão lindos… Deixa ver… Acho que eu tenho um aqui na bolsa… Ah, olha aqui ele, ó… Não é uma graça?… Pega, se refresca um pouco, menina… Faz o seguinte: pega o meu lugar, que hoje eu tô de folga; os meus netos foram pra casa da outra avó, no interior …

SENHORA OBESA:

- Ai, a senhora não sabe o quanto eu lhe agradeço!… Esse leque é tão lindo! A sua sobrinha lhe deu de presente?

LEONOR:

- Não…! Eu comprei pra ajudar a pobre a sustentar os cinco filhos, que ela teve com aquele cachaceiro!… Tadinha, na hora “H” não soube dizer não… Acabou ficando com a filharada pra criar e o bafo da pinga pra agüentar!…

SENHORA OBESA:

- Ah, mas então a senhora me diga quanto é o leque, que eu quero ficar com ele.

LEONOR:

- Olha, que amor!… A senhora não existe… São só dois e cinquenta. Ela vai ficar tão feliz, obrigada!…

fusão (c/ trilha sonora de 2 acordes de harpa)

Seqüência 3

(exterior – dia)

Marli e Leonor seguem juntas pela calçada, já na rua onde moram, contabilizando o dia passado na fila.

LEONOR:

- Ai, Marli, amiga velha…

MARLI:

- …Vizinha e quase irmã…!

LEONOR:

-… E comparsa, já esqueceu?!… Desde os tempos de solteira…

MARLI:

-… Êta nóis!… Mais assanhadas impossível!

(risos galhofeiros)

LEONOR:

- Pois é, sua velhota safada, quando é que nós vamos parar de dar esses golpezinhos mixurucas e encarar uma coisa que valha a pena??

MARLI:

- Em primeiro lugar, velhota é você, Leonor… (tom de deboche) Eu sou mesmo é uma dama disfarçada de plebéia, uma flor do subúrbio que o mundo não soube admirar…!

LEONOR:

-… Em resumo: uma mocréia abusada, sem nenhum tostão na bolsa e cheia de reumatismo!…

(gargalhada desabrida)

LEONOR:

- Tá bom, “Lady Marli de las Cucarrrrachas” (ênfase / deboche)… E sobre aquele papo da gente se arrumar na vida, hein?…

corte

Seqüência 4

(interior – fim de tarde)

Sentadas na cozinha da casa de Marli, as viúvas retomam a conversa.

MARLI:

- Olha, eu só sei que tem gente faturando zilhões por aí… E nem sempre o negócio é sério, hein?!…

Marli levanta e vai até o armário. Liga uma TV 14″ que, após uns trancos, começa a funcionar.

LEONOR:

- Iiihh… Na hora do aperto, neguinho até canta samba em japonês…!

Na TV, aparece um comercial de Tele-sexo, com uma garota – só de calcinha de renda preta – fazendo caras, bocas e trejeitos pré-orgásmicos numa cama.

MARLI:

- Taí, eu não disse?… Faturam com tudo…! Até com safade… (estaca) Caramba…!

LEONOR (espantada):

- …O quê!… Você não está pensando em…

MARLI (cortando):

- Nãããoo, sua boba…! E eu lá tenho hormônio e silicone suficientes pra isso?… Eu estou falando em montar um Disk-alguma-coisa, sei lá…!!!

LEONOR:

- … Hummm, pizza… (careta) sanduíche, sushi… Ah, dá muito trabalho e a concorrência já é enorme…! O quê será que ainda falta o pessoal entregar a domicílio?… Nada!…

MARLI (estalando os dedos):

- Aí que você se engana! Tem um serviço muito importante, que ninguém ainda se lembrou de prestar e perfeito para duas gentis senhoras como nós: (cara safada) chorar em velório…!

LEONOR:

- …(??!!!)

MARLI:

- É isso mesmo…! Já estou até vendo o anúncio:…

Aparece o anúncio (c / solo de trombone fúnebre-jocoso [tema Maxixe]), enquanto a voz de Marli lê o texto em off.

MARLI:

- “Sua vida está por um fio? Seus dias nesta terra estão por findar?… E você não sabe se alguém derramará lágrimas sinceras, no ensejo de sua derradeira viagem?… Agora você já pode exalar seu último suspiro em paz, sabendo que, ao passar desta para a melhor, será acompanhado por nosso respeitoso pranto fúnebre. Não deixe para a hora da passagem desta para a melhor, chame-nos imediatamente: DISK-VELÓRIO, carpideiras competentes a seu eterno dispor…!”

LEONOR (ajuntando em close) :

-… ” DISK-VELÓRIO: sua garantia de um velório bem infeliz…”

Em silêncio, as duas se olham por um segundo. Depois, gritam e gesticulam juntas:

LEONOR e MARLI (espalmando-se, como as jogadoras de vôlei):

- … Yes!!!…

fusão: ( Mús.: + dois toques de harpa)

 

Seqüência 5

(exterior / interior – dia)

Clipe mudo (só com música) em alta velocidade, mostrando os preparativos para a recém-criada “empresa”; desde a elaboração da logomarca (desenhada à mão), até a escolha e a prova das roupas de trabalho (vestidos e chales pretos), mais os “ensaios de choro”. fade

 

Seqüência 6

(interior – noite)

Leonor cochila numa poltrona, cabeça pendida para trás e boca aberta (cara de morta). Marli, que estava ao telefone, entra correndo e gritando, agitando um pedaço de papel. Leonor só desperta após o segundo grito (histérico).

MARLI:

- Leonor, Leonor!!…

LEONOR:

-… Hãããnnn…?! (engasga e pigarreia) … O quê?!…

MARLI:

- … Nosso cliente especial cadastrado com o número 00013 acaba de gloriosamente FA-LE-CER!… E nossa infaltável presença está sendo requisitada em sua câmara ardente, conforme previsto em contrato!… Agita aí essa carcaça e vamos nessa, garota-prodígio!…

corte c/ efeito especial (turbilhão*)

Seqüência 7

Mús.: *Tema de “Batman” (abertura)

(interior / exterior – noite)

Clipe mudo (só música), com os preparativos das duas a caminho da missão (tipo Rambo), a checagem do “equipamento” (garrafa térmica, biscoitinhos, balinhas, papel higiênico, cebola etc) e o embarque no táxi (caras e bocas de espiãs). Termina com o táxi saindo em alta velocidade. Fade

Seqüência 8

Mús.:

( interior – noite)

Marli e Leonor chegam à capela mortuária. O defunto está completamente só.

LEONOR:

- Pombas, isso é o que eu chamo de velório tranquilo…! Esse cara nasceu de chocadeira ou era algum eremita?…

MARLI:

- Sei lá… Por mim ele podia ser até o chupa-cabras, que dava na mesma… Mas ainda bem que o nosso cachê vai ser debitado automaticamente, na conta aí do de cujus… Já pensou se a gente dependesse dos parentes dele?!…

Mostra a face “serena” do velhinho estirado no caixão.

LEONOR:

- E agora, o que a gente faz? Começa a chorar, sem ninguém pra assistir o show?…

MARLI:

- Nada disso.! A ordem, agora, é: relaxe e aproveite!… Ô dinheirinho bem ganho…

LEONOR:

- Só…

O tempo passa (alterna closes do relógio / expressões de sono das duas + música enfadonha: Maxixe / clarineta ‘adagio’ ). Por falta do que fazer, elas adormecem sentadas na capela.

Seqüência 9

Mús.: Maxixe (tuba soturna + guitarra c/ distorção)

(interior – mesma noite)

As velhotas despertam subitamente, quando uma motoqueira – toda vestida em couro, botas de cano alto e óculos escuros – entra na capela mascando chiclete.

VALENTINA:

- Licença… É aqui o velório do tio Ermenegildo?…

MARLI:

- Ahnn, … Ele é, digo, ele era seu tio, mocinha?

VALENTINA (se “ajeitando” na pose):

- Mocinha não, que eu já estou bem crescidinha, tá, vovó? Meu nome é Valentina Troncoso. E aí, este é ou não o velório do meu tio Ermenegildo, pô?…

LEONOR:

- Ermenegildo Malaquias Troncoso, sim senhora…! Nosso satisfeito cliente especial, cadastrado sob o número 00013… (indignada) Por quê, hein?!…

VALENTINA (sorriso matreiro):

- Nada, não… Eu só vim ver se o velhote safado empacotou mesmo, pra poder reclamar a herança. Afinal, eu sou a única herdeira aí do sovina.

As carpideiras se entreolham, gulosas, e – com um olhar disfarçado – armam o bote.

MARLI (fingida / gentil):

-Ah, mas não me diga!… Sortuda você, hein?! Quer dizer que seu tio era bem-dotado…? Ooops… Quero dizer, bem de vida, né?…

VALENTINA:

- Bom, ele não era assim nenhum zilionário…! Mas eu é que não vou abrir mão dos 3 apartamentos no centro, da fazenda de soja, das 5 lojas no shopping e, principalmente, da fábrica de suco de banana.

MARLI e LEONOR juntas (espanto):

- Suco de banana???!…

VALENTINA (off):

(sobre imagens de bananas sendo esmagadas por rolos-de-macarrão e, já em pasta,acondicionadas nas embalagens)

- É… (tom pseudo-publicitário) ele inventou um processo especial de esmagamento produtivo da fruta, que conserva suas propriedades e seu sabor característico, a um custo baixíssimo… Realmente a custo de… banana! (tom) As vendas cresceram 300% no último ano e continuam crescendo…!

LEONOR:

- Que massa…!

VALENTINA:

- É, mas tem um porém: o velho encabeçou que eu só vou poder receber a herança se cantar uma música, na hora do enterro…

MARLI (falsa):

- Ai, mas que coisa mais bonita… E daí, qual é o problema em fazer a última vontade do velhinho?

VALENTINA (exaltada):

- O problema é que eu nunca ouvi nem uma nota de uma tal de “La Vie en Rose”, quanto mais ia saber cantar essa coisa!…

As velhas se entreolham por um instante e, com cara de cantoras do rádio antigo, começam a cantar:

LEONOR e MARLI (juntas):

- Comme…

VALENTINA (surpresa):

- Pô, é essa aí mesmo…! Vocês conhecem a melô inteira?!…

MARLI:

- Xiiii, a gente canta isso de cor e salteado, desde o tempo em que moça direita só beijava homem na boca depois de noiva…

LEONOR:

-… E só ia à praia com maiô de saiote por cima…!

MARLI:

-… É, e só…

VALENTINA (cortando):

- Tá, tá, já chega desse “papo-de-asilo”!… Qual das duas vai me ensinar essa perereca de música antiga?… Tô pagando bem, sabiam…?

LEONOR:

- Pagando bem?… (pausa + tom) Menina, essa é a grande chance da sua vida…! Você tem mais é que agarrá-la a qualquer custo…!

MARLI:

- … Ééééh…! E não despreze a sorte de ter achado duas pessoas como nós, dispostas a emprestar c-a-r-i-d-o-s-a-m-e-n-t-e nosso conhecimento musical para que você abiscoite sua polpuda herança… (ladina) Por quarenta por cento da bufunfa, nós fazemos você cantar “La Vie en Rose” até dormindo…!

VALENTINA:

- Qual é, vovó, tá pensando que eu tô no desespero, é…?

LEONOR:

- E não tá, não?!…

Close de Valentina desconcertada.

Corte

Seqüência 10

Mús.:

(exterior – dia)

Plano geral de um cemitério-parque. À beira de um jazigo aberto, visivelmente desconfortável, Valentina prepara-se para começar a cantar. Junto do advogado presente, Marli e Leonor parecem torcer pelo sucesso da moça.

ADVOGADO:

- Muito bem, pode começar.

VALENTINA (c / voz trêmula):

- Comme…

À medida que ela canta e as velhotas roem as unhas, a câmera se aproxima do caixão aberto, chegando a um big close do defunto. Alternam-se planos fechados das carpideiras, “chorando profissionalmente”, de Valentina cantando – acompanhada p / orquestra – e, no último verso da canção, fecha novamente no defunto que, repentinamente, desperta e canta o final junto com a sobrinha, sentado

no caixão…

TIO ERMENEGILDO:

- …. la vie en roseeeeeeee…. Ai, minha cabeça…!!!

VALENTINA (engasgando na última sílaba):

-… ros… (toss…!) … Caramba…!

LEONOR:

- Pelas barbas do meu falecido Onofre, o velhote não desencarnou…!

MARLI:

- Meus pecados, o velho voltou das trevas…!

VALENTINA:

- Titio, o senhor tá…, tá…, tá v-i-v-o?!…

TIO ERMENEGILDO:

- Que palhaçada é essa?… Claro que tô… Ui, mas que dor de cabeça!…Valentina, você tem certeza que me deu a dose certa daquele calmante?… E por que, diabos, eu tô dentro de um caixão e você tá cantando “La Vie en Ro…???!!!

Todos olham para Valentina, indignados com a revelação da farsa quase fatal. Enquanto ela tenta convencer o tio e o advogado de sua inocência, Marli cochicha com Leonor. Começam a se afastar dali.

MARLI:

- Amiga…

LEONOR:

- … Companheira…

MARLI:

- … Deixa disso!… Vamos tratar de salvar o nosso, que a peruazinha ali (aponta Valentina) tá quase indo pra panela…

LEONOR:

- E eu é que não vou querer fazer companhia pra ela…!

Quando as duas já estão a uns trinta metros do jazigo, escutam a quase-assassina gritar:

VALENTINA:

- … E aquelas duas lá, ó, é que armaram tudo…!

LEONOR (à meia-voz):

- Mas que piranha…!

MARLI (à meia-voz):

- Ah, eu é que não vou ficar pra ver o circo pegar fogo!…

LEONOR:

- Muito menos eu…! S’imbora, minha nêga, de volta pra fila do INSS!…

MARLI:

- Ai, ai…! Adeus, sonhos de glória e de fortuna!…

As duas apuram o passo, enquanto Valentina e o advogado saem atrás delas. O ex-defunto esbraveja e gesticula, ainda sentado no caixão. A câmera sobe logo após a passagem delas, abre o plano e estabiliza no alto (grua).

Mús.: tema final (Maxixe)

Créditos finais sobre a imagem

FIM

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FELIZ ANO NOVO!

sexta-feira, janeiro 1st, 2010

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