Votos de felicidade

abril 16th, 2012

…e que por tanto amor vocês resolvam que vão morar um dentro do outro. Mas numa casa espaçosa com um quarto para cada individualidade. E que seja preservada essa pessoa que são com seus amigos e todas as lembranças mais especiais de toda trajetória. Que vocês permitam que o amor não preencha as suas vidas tão absolutamente a ponto de não restar uma lacuna que seja pras vidas anteriores e pros potenciais que ainda desenvolverão solitariamente. Como quando tinham tempo livre pra serem sós e gostavam disso. Como quando ainda não respiravam apenas essa novidade da chegada do outro.

E que nesse quarto pras suas visitas, só não seja permitida a entrada de fantasmas. E que de resto, todos os seus convidados e aprendizados sejam muito bem recebidos. Depois vocês até poderão escolher se compartilharão ou não. E por essa liberdade de escolha, vocês sempre terão vontade de compartilhar.

E que por tanto amor vocês resolvam também que qualquer coisa que doa um pouquinho seja conversada antes que doa um montão. E que quando isso acontecer, não ocorra de cada um entrar no seu quarto espaçoso e deixar a porta trancada só pra assustar o outro.

E que vocês reúnam aquele punhado de problemas, sentem na sala e se esparramem no chão como quem tenta montar um quebra-cabeça ( juntos) sem olhar o desenho na capa da caixa. Porque vocês sempre vão querer descobrir a raiz da paisagem pra ela ser mais bonita.

Desejo que conheçam profundamente a folha antes de compor a árvore. Porque, aí então, vocês saberão que pular etapas é um jeito  ineficiente de resolver o x da questão. (A vida não aceita o resultado do problema sem o desenvolvimento da fórmula).

E que por tanto amor, desde que vocês resolvam morar um dentro do outro, que suas vidas sejam ampliadas de alegrias sinceras. Que compartilhem tudo que não entenderem. E que sejam apegados às inexperiências, sentindo curiosidade pra saber no que elas vão se transformar.

Não escondam o que é tão interior, pessoal e intransferível, assim como quem não quer mostrar a letra da música sem a melodia pronta. Tateiem as confusões de cada um. E, em silêncio, respeitem seus barulhos mentais.

E que a casa de vocês seja ampla pra caber suas individualidades, lembranças, amigos, seus silêncios, muito amor e tudo que são e se tornarão juntos.

Vida longa ao casal!

Quem é você?

abril 3rd, 2012

Águas de março fechando o verão…

março 19th, 2012

Acabou o verão que não criou moda, mas quase nos escaldou. Chega a estação que nos prepara para começar tudo de novo. Começou o ano. Mas, vamos combinar? Para falar de amareladas, melhor inspiração não há que seja melhor do que essas birutas do governo, mais desencontradas do que as cigarras e as formigas das fábulas. A propósito: não assine nada perdoando o que ainda não assistiu.


 

Será que pode ou vai poder? Eu disse poder, ouça bem. Hoje dizem que não; mas amanhã de manhã, quem sabe? Há dias que a manchete do jornal nos faz rir (ou tremer) logo cedo e até a hora do almoço já pode ter perdido a validade. Claro que vocês também estão acompanhando os acontecimentos, e sabem que não estou falando só de liberar bebidas ou não na Copa, essa “rica” e instrutiva discussão. Refiro-me àCozinha, de onde saem os pratos que nos enfiam goela abaixo.

Está parecendo piada, reunião de doidos e doidas batendo a cabeça, com cada um correndo para um lado para atender ordens imprecisas, contraditórias, e iguais às folhas das árvores que caem no outono: prontas a serem pisadas e fazer aquele barulhinho decréc-créc. Trocam seis por meia dúzia, e os desesperados voltam-se ansiosos para o Grande Buda, que ora está no hospital, ora a caminho de casa, com seu fotógrafo particular de bolso. A impressão é a de que há muito mais comandos do que a vã filosofia, e do que a que elegemos. Isso não é nada bom, tsc, tsc, tsc

Amarelar também quer dizer dar no pé, recuar. Há inclusive um tal verde-oliva querendo voltar a ser moda, cor da estação, manter-se presente nos editoriais. Um puxa de lá; outro de cá. Fazem exercícios de braço-de-ferro, puxam a corda em cabo de guerra, mostram a língua uns para os outros, abrem as braguilhas para mostrar e decidir quem tem o maior. Batem os pés e os pratos na mesa do jantar, empunhando afiadas facas e garfos.

Enquanto isso, lá na Cozinha é sensível o certo nervosismo dos aprendizes. Uma sua, arregala os olhos, histriônica; a outra arrebita o nariz e fareja infelidades, inclusive partidárias, além das “come-zinhas”. Até a pesca foi renovada, para ver se rendia algum gosto pela coisa. Duvi-de-o-dó que se perguntarmos de sopetão os mais de 40 itens do cardápio de ministros, ministérios, secretarias, algum deles saiba responder. Não andam mesmo merecendo gorjetas nem gratificações.

Mas chegou o outono e temos de nos preparar, já que nós mesmos não conseguimos muitas chances nem de veranear, quanto mais de hibernar. Vai esfriar um pouquinho, mas não interessa, porque vamos continuar reclamando porque nunca nada está bom mesmo para todos. Essa estação é boa pra essas confusões: frio-calor-seca-chuva.E elas, as folhas, vindas lá de cima com sua graciosa dança ao vento sobre nossas cabeças.

Daqui para a frente já vai ser mais comum encontrar com a ignorância varrendo calçadas com mangueiras de água preciosa, como se vassouras fossem. Saber de gente querendo cortar árvores porque as folhas sujam suas consciências e casas. Mais uns dias de reza na Semana Santa, e chega o aquecimento para a maratona eleitoral. As pistas de treinamento estão cheias, mas com poucas promessas de campeões de destaque. A não ser na turma dos fantasiados que sempre surgem, como palhaços do show, para ganhar uma camiseta e um pouco de fama – essa, que corre mais do que todos juntos.

Portanto, pés no chão. Aquela blusinha a mais por perto – a da meia-estação. Beba muita água, que a coisa vai secar. Faça um estoque de chocolates, que são bons antidepressivos em alguns momentos, mas também excelentes para comemorar certos “depois”, aqueles imortalizados pelo cigarrinho.

Mas, por favor, fique atento. Não permita que o nosso país vire chacota nem nossa, nem internacional. Pare e pense; só não pare no acostamento. Vermelho, amarelo, verde. Olhe bem para os dois lados. De vez em quando acontecem algumas vergonhas, que dão vontade é de chorar.

Juro que li, ouvi, soube. Horrível.Que houve um caso de racismo em um palco paulista, mais uma vítima das piadas sem qualquer graça que enriquecem meninos como se fossem os que aparecem como gênios da informática.

Sabe o que para mim foi muito mais horrível? Saber que houve um monte de pessoas assinando um documento - ANTES do rock-horror-show – e onde se comprometiam a não se sentirem ofendidos, não se magoarem, e até rirem muito, antes de saber o que seria dito HAHAHA!

Você já tinha visto isso? Pois foi. E assinado por mulheres, negros, gordos, feios, baixinhos…

Que venha logo o outono para refrescar nossas cabeças!

São Paulo, na estação que chega às 2h14 de uma terça-feira, 2012


 

Bravas Mulheres

março 4th, 2012

(M.G.)

Muito prazer, se ainda não nos percebeu. Mas nós nos apresentamos todos os dias bem diante de seus olhos. Temos todas as idades e fazemos de tudo um pouco, porque não há mais tempo nem de parar para discutir, ficar de bate boca com quem ainda não entendeu que a igualdade já é; só falta criar mais raízes.

É. Conseguimos. Nós ainda surpreendemos a galera quando aparecemos desbravando algum campo de batalha e quartel general masculino que porventura resista, mas já caducando, por aí. Não é por querermos nos gabar, mas convenhamos: em muito pouco tempo, poucas décadas, depois que obtivemos mais ar para respirar, avançamos, demos passos gigantescos com os nossos saltos altos ou rasteirinhas, com nossas qualidades e implicâncias e – por que não dizer? – algumas poucas, pouquíssimas, fraquezas e deficiências. A gente pode tudo e tem mesmo é de ficar bem prosa. Fomos fortes, atravessamos os preconceitos, e ainda morremos, ou somos assassinadas, e comemos o pão que o diabo amassa todos os dias com o rabo. Mas conseguimos. Chegamos lá; e lá; e lá, também. Governamos, mandamos, dirigimos, destruímos, lideramos, lutamos, descobrimos véus e arrombamos portas antes fortificadas com cercas elétricas. Nada mais natural, de natureza, naturalidade, que já estejamos até nascendo meio diferentes, mais firmes, mais confiantes, como vemos todas as menininhas por aí esbanjando a alegria e as diferenças da alma feminina, nossa essência. Tudo já é mais precoce, mais livre, sem vetos. Há quem diga que o mundo ficou bem melhor. Pode ser. Mas nós também damos muito “defeito”, principalmente quando nos espelhamos e buscamos imitar os comportamentos do tal alfa masculino. Aí nada combina. Hoje já assustamos com nossa presença maciça no mercado de trabalho, na colaboração com inteligência, e no uso cotidiano de nossas grandes armas, além da beleza intrínseca, claro! Somos generosas, intuitivas, até decorativas. Fazemos o mundo mais bonito e às vezes penso até se não é esse o detalhe que faz com que tantos homens até se operem para chegar “lá” mais jeitosos. Cada vez mais, também, mulheres amam outras mulheres, livremente, e já estão nas ruas, andando de mãos dadas, sem precisar apresentar desculpas. Somos mais do que comadres. Somos diferentes mesmo. Adoramos novidades, trocar a cor de nossas roupas e cabelos. As que podem, capricham. Cortam aqui, ali, aspiram de um lado, injetam de outro. Temos até agora o que chamo, mas na boa, de Nova Raça – um ramo da espécie feminina, que tem um bundão e um pernão maiores do que os dos jogadores de futebol, esporte onde, aliás adentramos o gramado com glórias e martas absolutas. Quase assustadoras diante dos mirrados homens, essa nova raça foi vista agora mesmo, abundantemente, nas escolas de samba; estão nos reality shows e onde tiver um funk para dançar “chão, chão, chão”. Tanquinho só no abdômen – o tempo é gasto em levantar pesos, cuidar dos glúteos, algumas até exageradamente, essas popozudas que povoam sonhos, mas que bem poucos têm condições de encarar. Estamos todas nós nas capas e fotos das revistas, inclusive nas econômicas e especializadas em mais do que ensinar como ser mulherzinha. A lata de água na cabeça ficou para trás. O corpo malemolente moldado nas vielas e ladeiras também. Mas o rebolado, de alguma forma, aumentou. Independência traz maiores necessidades. Nós, as novas mulheres. Mulher que tem homem. Mulher que tem mulher. Mulher que tem amantes. Mulher que quer viver sozinha. Mulher que tem filhos só seus, e até com o sêmen de desconhecidos – e os homens sempre se acharam necessários para tal. Mulher que, mesmo sozinha, adota e amamenta filhos de outras mulheres. Mulher que não quer filho, mas ama gatos, cachorros ou livros. Mulher que tem brinquedinhos vibratórios na gaveta, e alguns de verdade. Mulheres que amam demais, de menos. Que se jogam do céu em paraquedas, e pilotam aviões ou motos e bicicletas. Ou ônibus, caminhões. Que venham os motores e as rebimbocas e parafusetas. Mulheres que pagam por acompanhantes momentâneos, para conversar, dançar ou amar. Somos mesmo demais! Nossos banheiros têm mais shampoos e cremes e se você não sabe por causa de quê, respondo. É simples: porque alternamos. Hoje podemos mudar de ideia. Amamos sapatos porque eles levam nossos pés longe, como rodinhas, ou as asas de Mercúrio, e nossos olhos gostam de vê-los se movimentando. Amamos bolsas porque nelas carregamos muitos de nossos segredos, um pouco de nossa casa, primeiros socorros. Talvez até a foto do amor na carteira. As chaves que abrem as portas que atravessamos, ou as que trancam e protegem nossos tesouros. Gostamos de brilhos. Nossos armários têm mais coisas do que a que podemos usar. Faz parte. A gente nunca sabe bem qual personagem será o do dia, e é para isso que existe a criatividade de juntar peças, como fazemos com a vida, quebra-cabeças. O palco é a vida. Somos todas artistas. Somos invejadas por essas nossas capacidades, até por outras mulheres que demoraram a perceber as mudanças que foram tão rápidas, e que muitas até hoje ou não entendem, ou dizem por aí que não as queriam. Não foi fácil; não é fácil, não será. Mas aconteceram e nasceu a Nova Mulher. Muito prazer – inclusive uma das coisas que gostamos – em conhecer. Por isso, sorria, aplauda. Venham comemorar com a gente o Dia da Mulher, mas, por favor, sem falar besteiras ou piadinhas bobas. É o dia que marca nosso orgulho. Deixa ele aí no calendário. Marque um círculo em sua volta, como se fosse tabelinha de menstruação, essa coisa tão feminina. Podia até ser feriado, porque por ele, para conseguir tudo isso, muitas de nós morreram. Para mantê-lo, ainda morrem.

São Paulo, março de 2012, bom mesmo seria ver tudo cor de rosa. •

Nossa primavera particular

setembro 21st, 2011

  Adoro. Fica tudo mais bonito, mais colorido e até mais romântico. Sempre tive a impressão de que a primavera era uma estação para, como diz um amigo, “acasalar  muuuitoooo” (ele fala assim, quase como se uivasse).

 

Lá vem ela, cheia de graça, menina, a primavera. Traz consigo o trocadilho antigo do como vai sua prima. Traz um frio e calor e frio e calor, mais temperados. Traz o canto dos pássaros bem mais forte, mas insinuante e cheio de piadinhos aflitos dos filhotes nos ninhos. Traz invariavelmente o que todos os anos chamam tendência: os florais. Este ano, adianto, o quente da estação serão as estampas “Liberty”. Ah! O que é? Esse é o nome dos floridos dos tecidos, mas os que sejam mais delicados, com florzinhas, folhinhas, borboletinhas, toda sorte de inhas, miniaturas delicadas e que nos dêem ou tragam um ar pueril, campônio, de boa gente, natural. Não precisa morrer de rir, não vou tentar mudar seu estilo só porque a Primavera chegou. Você a recebe como bem entender.

Só que primavera é palavra usada o ano inteiro e nem sempre por causa só do ciclo da natureza e do tempo, embora não deixe de ser também. Primavera é sempre renovação. Seja por aqui, mas ultimamente tem sido muito também por lá, pelo Oriente, pelos exóticos mundos das Arábias, Mil e Uma Noites e ditadores cruéis. Se oriente, rapaz, nós já tivemos muitas primaveras revolucionárias e jamais esquecidas. Sempre é tempo de fazer mais uma, e vai ser boa se for para melhorar, para continuar vivendo, para continuar comemorando, contando e colhendo outras primaveras, igual aqueles bichinhos do Pac-Man, nhec, nhec, nhec, comendo pontinhos, desviando os caminhos dos labirintos para não ser engolido.

Sei lá se é muito tempo que estou sem Sol, nem na laje – sem viajar, sem parar. Fica difícil ser otimista e primaveril no meio de adversidades, principalmente para os que têm aguçado espírito crítico, mas não custa tentar. Outro dia, meio friozinho, alguns minutos livres, tirei as meias e pus os pés, só eles, expostos ao Sol que entrava pela janela. É pouco, sei, mas foi o que deu, e a vida é feita de coisas que dão, no bom sentido, se é que me entendem. O que acontece é que a gente nunca sabe dar valor na hora para essas mini “libertys”, iguais às estampinhas que estão na moda, e acaba perde os seus bons efeitos e pequenas oportunidades. No caso, como tenho expressivos dedos dos pés, foi como se eles me agradecessem essa graça, esses instantes de liberdade, fora das grades dos sapatos e meias. As meninas, como chamo os meus dedões, pareciam cantar e dançar, movimentando-se.

Ok, minha capacidade de imaginação aproveitou a viagem e aí eu pensei na praia deserta de meus sonhos, na areia branca e fina, naquela sensação que dá de descarrego, literalmente, quando pisamos descalços na areia, quando mergulhamos na água salgada do mar. Foram minutos importantes, e pensei também que poderíamos, em tese, todos, buscá-los, porque independem de poderes ou recursos. São “socializados”, mas só os seres do bem, valor imaterial, podem enfim obtê-los. Tais Como algumas mitologias onde – aos heróis, que têm um dom e uma meta positiva – os deuses propiciam sensações, vitórias e até o renascimento nos caminhos, nos designios. Será o tal prometido Reino dos Bons?

A primavera, por aqui, também nos lembra que mais um ano vai acabar, que aquele cara de vermelho e de barba vai fazer rôrôrô bem na nossa cara daqui a alguns dias, pedindo que o sigamos em compras e gastos e presentes, fazendo-nos acreditar que esse país está uma belezura. Não, não é o Lula esse cara, embora o próprio Papai Noel deva ter se inspirado no esbanjar de considerações de maravilhas que o ex-presidente agora teima em fazer pelo mundo. Sem renas; só com bons jatinhos, emprestados por pessoas boas, desinteressadas, e que ainda depositam recursos nos saquinhos da boa vontade.

Bem-te-vi, bem-te-vi! Se eu, que moro no meio de um animado centro urbano, consigo ouvir o apelativo som dos passarinhos que buscam atrair parceiras para a festa da primavera, imagino que há nesse mundo muitos que podem ouvir muito mais do que isso, fazer muito mais do que eu consigo. Imagino uma Revolução dos Bichos, mas bem-sucedida, ao contrário da descrita por George Orwell. Ali, as boas intenções acabaram virando o que a sociedade é mesmo. A realidade de um emaranhado de animais até mudando mandamentos ao seu bel prazer.

Parem de buzinar tanto, que quero ouvir a natureza! Se querem gritar, usem suas próprias vozes. Se querem fazer algo, façam, aproveitem a renovação. No silêncio dos sons da natureza, quem sabe, melhor do que primavera, fim de ano, você não vislumbre um carnaval? Acho que quando compôs O Carnaval dos Animais, em umas férias de 1886, Saint-Saëns fez exatamente isso.

E passou para a eternidade.

 

 

São Paulo, difícil se isolar, Primavera 2011, efeitos especiais

Redemoinhos…

agosto 7th, 2011

… eles são inevitáveis. Igual buraco de bueiro nas ruas. Se a ponta do pé entrou em um, o Tempo – durante um tempo – se estenderá de forma diferente até tudo acabar de girar, se é que um dia acaba, se você não tonteou no caminho, se ele não engolfar tudo Ventos, ventos, ventos, às vezes tenho verdadeiro pavor deles. Quando zumbem na janela, quando forçam portas e janelas, quando cantam e atiçam as vidraças. Quando varrem em direções variadas, chacoalhando como se quisessem arrancar tudo, sem muitas delicadezas, o que já estava alquebrado, cansado, prestes a ir. Com o vento as coisas se aceleram, andam mais rápido, são instadas a se mover. Na vida os ventos podem ser suaves, brisas modorrentas, ou sopros mais fortes. Mas no nosso caminhar aqui neste chão encontramos de quando em quando o que poderíamos definir quase como buracos para o infinito, fendas de vento, exatas e cruéis: os redemoinhos. É aquele momento que a melhor descrição seria pedir para você se imaginar dentro de uma máquina de lavar roupa naquela hora “centrífuga”, que tira as últimas gotinhas de água das roupas, torce, e dá umas batidas para a própria roupa ter certeza que tem de soltar toda a sujeira ali, naquele ciclo. E sair limpinha, renovada, pronta para a próxima combinação de vestuário. Fins de relacionamentos, decisões urgentes a tomar, correr para tirar o rabo da janela, escapar de sacanagens e armadilhas, principalmente quando fazem surpresa, são redemoinhos, torvelinhos. Desde menina admiro suas formas, ouço contar as histórias, lembro de terem me dito que havia um ali no mar de Santos, perto de onde eu fazia castelos de areia com meus baldinhos e moldes coloridos e me sentia segura longe dele. Será por causa dessa imagem que demorei tanto a perder o medo, e nunca deixei o receio das águas do mar? Os redemoinhos nascem em dias quentes, de muito sol, e estranhamente, em dias sem vento. E, pelo menos os de areia, podem ser pequeninos de poucos centímetros a monstros de muitos metros de altura e força. A fantasia diz que o saci se esconde em seu interior. Os matutos quando viam o redemoinho acreditavam que ele era o rastro da passagem do Saci-Pererê com seu cachimbinho maluco. Noutros cantos, acham que é o próprio diabo andando pelos campos. Lobato escreveu sobre a crença de que se alguém entrasse no meio do redemoinho munido com uma garrafa e uma peneira conseguiria capturar ou saci ou diabo ou autor do turbilhão. Mas, agora, pesquisando, acabaram com a minha fantasia. Olha só o desmancha-prazeres: “Na verdade o que acontecia é que ao entrar no meio do redemoinho, a pessoa pode interromper a corrente de convecção que alimenta o sistema, e o redemoinho “simplesmente desapareceria”. Para tudo tem explicação. Bom, eu não quero mesmo caçar sacis; quero apenas sair viva e inteira dos redemoinhos que encontro. Eu, só, não. Todo mundo. Pessoas e países vira e mexe se defrontam com situações que – não tem jeito – dali, só dá para ir em frente, sem recuar, sem fugir. Não estão vendo as primaveras dos países que viviam em longos invernos? Não estão vendo um gigante com a unha encravada, gritando ui,ui? Jogue uma pedrinha na água e observe as ondas crescentes, perturbando até onde alcança o deslizar dos círculos que procria. Assim é até voltar ao normal, com a pedra no fundo, engolida e absorvida pela superfície. Vórtices. Fenômenos da natureza são danados para colar em sabedorias, principalmente as mais bonitas, vindas do Oriente. Sabia que, para os orientais, o redemoinho – ou aquela espiral de cabelos que todos temos no alto da cabeça(tá bom, os hoje carecas não têm mais, mas já tiveram) é a origem da vida e representa a entrada da força do Céu no corpo? Para eles é a partir dos redemoinhos que o corpo se desenvolve, e tem gente que possui duas ou mais espirais no cucuruco. Dizem ainda que, no geral, a parte da frente da cabeça é mais “Yin”, feminina, suave, enquanto que a parte posterior é mais “Yang”, masculina. Corre no espelho para ver. Eles ensinam que, se o redemoinho começa em direção à fronte, a pessoa é mais Yin. Se o redemoinho começa em direção à nuca, a pessoa é mais Yang. Se o redemoinho está bem no centro da cabeça, seria o sinal – olha que legal! – de que Yin e Yang estavam harmonizados no momento do nascimento. Ou seja, os seus pais estavam em harmonia física e mental, fizeram você bem gostoso, no bembom. Essa pessoa feita assim teria maior tendência para as artes, pensamento profundo, harmonia e equilíbrio em geral. Se o redemoinho está à direita da cabeça indicaria disposição ativa e tendência para a vida prática, bem Yang. Se o redemoinho está à esquerda da cabeça indica uma visão objetiva, analítica e um pensamento sistematizado, mais Yin. Agora que eu até já estou daqui só vendo você aí com o dedinho apalpando e procurando onde é o nascedouro do seu próprio redemoinho, vou indo. Mas vou dar uma voltadinha. Sabe o que eu achei também? Teve um cabeção, que nem vem ao caso, que resolveu fazer uma pesquisa e lançar uma tese de suas suposições. Ele diz que parece que os homens gays têm quatro vezes mais redemoinhos no topo da cabeça, na direção oposta ao sentido dos ponteiros do relógio do que a população em geral.

Força na peruca!

 São Paulo, agostos ao gosto, 2011

O Coelho da Alice…

julho 4th, 2011

Lembro sempre do coelho da Alice, aquele que comemora desaniversários todos os dias. Mas no caso falaremos é de deselegâncias, que o povo anda fazendo a torto e direito todos os dias. Tem também umas manias…

Encontros marcados e desmarcados em cima da hora, como se não fizéssemos mais nada a não ser sempre estar à disposição, com um tapete vermelho, pronto a ser estendido. Respostas prometidas que nunca chegam. Projetos solicitados para “ontem” que se desintegram no ar junto com quem pediu. Ando notando e anotando que – digamos – a “etiqueta”, a mínima, a básica, a da educação, virou mesmo uma coisa fora de moda.

Se isso ocorre habitualmente no mundo empresarial, onde sempre há algum dinheiro envolvido, deve andar muito pior ainda no convívio social. Nem é mais o caso do tal telefonema do dia seguinte que as mulheres (como se não acontecesse com os homens) tanto esperam. Esse já virou mito. Lembro que chegava a ficar tirando o telefone do gancho toda hora para ver se ele estava funcionando mesmo, queria ouvir o barulho da linha, e era capaz de brigar feio se alguém ousasse “ocupar” o aparelho. Sempre achava que exatamente naquela hora a pessoa ia ligar, ia dar ocupado, e baubau. Quando não havia tanta tecnologia nos sujeitávamos a cada uma! E nem vem: você também já fez isso. Apenas admita.

Agora não, já estamos na sala da Casa da Mãe Joana, e com os pés em cima da mesa. Se nego diz que vai ligar, bah! ninguém mais nem acredita mesmo, tal é a esbórnia. E logo agora que não há mais tantos álibis de dificuldades com o advento do celular, SMS, caixa postal, orelhões, telefone sem fio, fora redes sociais, etc. Outro dia me toquei de uma morte horrível – que não chegou a ser registrada e lamentada – e de uma coisa que, pelo menos para mim, era parte da “família”: a coitada da secretária eletrônica, que sempre levava culpa por alguma coisa, ou por pegar o recado e não transmitir, assim como falhar justamente quando não podia, às vezes por mera falta de luz. Eu amava minha recadeira. Hoje, a aposentei. Ela, que ficava em casa quando eu ia trabalhar; e o telefone fixo, aliás, aposentado junto.

Agora também todo mundo mente, na cara dura. O que é pior, contando com a ajuda da péssima qualidade dos serviços públicos que realmente estão inacreditáveis – e eu sei por que me obrigo a usar pelo menos duas operadoras para me garantir. Mesmo assim, toda hora tem um esperto (a) tentando! Você pode ter passado o dia atendendo o celular, de um monte de gente, parado em um mesmo lugar, sem nem passar em túneis. E quando pergunta por que AQUELA pessoa não ligou, a resposta, invariável. “Eu liguei, mas não dava sinal”. Ou, pior: “Liguei, mas caiu na caixa postal”. Carambas, Caracas, caracolas: para o que serve a “!%#@+*” da tal caixa postal? Não foi criada exatamente para pegar a mensagem?

Ou as pessoas são tão tímidas que não conseguem falar com a boca no microfone? O que custa?…hum hum

Enfim, deve ser moda. Outra: você dá passagem para o sujeito atravessar na rua, e ele vai lento, balançando a bunda, olhando pra sua cara com certo ar bovino; isso quando não atravessa a rua de costas, na diagonal e ainda te xinga se bobear. Tem essa, outra, o de se fazer de bobo para viver, de desentendido: você pergunta uma coisa, ou observa algo, vê claramente que a pessoa ouviu muito bem, mas esta, talvez por hábito, “ganha tempo” e devolve: “Hein? Hein? Como? O que disse?”

Só pode ser moda. Você, recheado de razão, vai reclamar de algo. Por exemplo, com o síndico. Ou com a empregada de casa. No trabalho. Na loja. E o que acontece? O outro lado vem e te despeja uma história que não tem nada, nadica de pitibiriba, a ver com o caso, em geral mais triste do que a crucificação de Cristo, ou para justificar, ou para te deixar com a cabeça caída. Responde, mas mandando tal carga negativa que você tem vontade é de sair dali voando e se internar num convento, passar a cuidar apenas de atividades filantrópicas, doar tudo o que tem. Agora, aprendi: fez isso? Ah, vai ouvir um cabedal, uma cachoeira, um rio caudaloso de problemas porque aí recolho todos – os que eu já tive, tenho e talvez terei, ou li sobre em algum lugar; peço emprestado os problemas dos amigos e afins, criando mais detalhes verdadeiramente escabrosos, pingando sangue, suor e lágrimas. Ora, façam-me um favor!

Deve ser. Deve ser moda. Só pode ser. Ou bactéria. Pegou na política também. Petistas e simpatizantes andam batendo verdadeiros recordes nisso, em torcer a porca, mudar o foco quando são flagrados, explicar que não é bem assim, “ô gente ruim”! Não há assunto, denúncia, fato comprovado que apareça que eles não digam que tudo não passa de mera invenção da mídia conservadora burguesa que não quer deixar que acabem as injustiças sociais e pretende detonar as grandes conquistas dos trabalhadores, travar o desenvolvimento e o crescimento da Pátria. Todas, claro, vantagens obtidas apenas por ele, O Criador, claro, O Lula, quando o mundo começou – não sei se você sabe, fato que ocorreu apenas em 2002, Ano da Assunção. No futuro não haverá arqueólogo, sociólogo, que entenda essa Era, nem chupando os ossinhos que escavarem.

Impressionante. E eu achando que já tinha visto de tudo.

 

 

São Paulo, 2011, 9 anos DDP (Depois Deles no Poder).

Feliz Ano Novo, e que tudo se realize…

junho 29th, 2011

M.G.

  …no semestre que vai chegar! Acabou a primeira fase de 2011. Foi tudo muito rápido, meu bem, e não deu tempo nem de sentir prazer. Vamos, então, festejar o réveillon do segundo semestre, para ver se pelo menos agora vai.

É hábito de muitos anos. Sempre comemoro, mesmo que em silêncio, o que chamo de réveillon do segundo semestre, e é agora, esta semana. Voou; não passou. Chegou julho. O tempo, esse maluco, anda parecendo motoqueiro furando trânsito em São Paulo – não respeita mais nada, nem ninguém, nem qualquer previsão ou expectativa. É cruel: comigo, com você, com as contas, com a Dilma, e também com a leseira dos tais preparativos para a Copa, que já estão dando no saco.

Tudo parece que foi ontem. A chegada do ano e sua presidente, com seus porquinhos, brancas-de-neve e cinderelas, além dos personagens eternos, como o Mordomo, o Bigode, o Empertigado e, claro, O Barba. Muitos não ficaram nem até a meia-noite na festa, e a lua-de-mel com o povo quase dura menos do que as do Fábio Jr. Tem bruxinhas voando para todos os lados, e se há alguém que não acredita em duendes, até pode ser. Mas aloprados há aos montes. Desgovernados, todos nós. E alucinados, lunáticos, despropositados e afins andam procriando mais do que os embriões manuseados por aquele médico maluco que nos deu uma banana, literalmente, e fugiu por aí.

Os tais grandes eventos, que não sei mais quem ainda acredita que vão mudar nossa situação, já faz tempo que foram anunciados. Que preguiça! E? Nada. Aeroportos, estradas, serviços, comunicações e todos os etceteras continuam lentos, quase parando, piorando, sigilosos, e já nem mais é segredo por quê. Contrato bom é contrato feito de emergência. Foi um brasileiro quem – quase certo – inventou a máxima: no fim, tudo dá certo. Só pode ter sido. E nem sempre é verdade, também sabemos.

Nesses primeiros seis meses assistimos foi a muitas desgraças, cruz credo. Enchentes, deslizamentos, inundações, acidentes, desgovernos, denúncias, corrupções & bandalheiras, barrancos e barracos vindo abaixo. Lá de fora recebemos uns borrifos de sangue de Osama, cinzas de vulcão, ares carregados de medo, inclusive nucleares, tremores e deslocamentos de terra e da Terra, bactérias-monstro, notícias de primaveras de liberdade que até agora não deram flores.

Precisamos de um descarrego. Não, não é preciso criar mais um ministério para isso, calma. Já viu que agora tudo o que a gente fala ou pede perigas virar mais um órgão público onde sentam um apaniguado de algum partido ou de alguém? Temo que eles estejam precisando de mais espaços. Melhor ficar junto à parede. Porque até siglas são pomposas. Que tal, por exemplo, a Autoridade Pública Olímpica? APO. APOlogia, para políticos APOsentados, ou APOiados em APOstas que dão com os burros n`água. De autoridades estamos é cheios.

Pela frente serão só mais seis meses para chamarmos de nossos. Ano que vem tem eleições de novo, e então seremos mais uma vez invadidos por aquela estranha sensação de sentir alguéns passando a mão em algumas partes de nossas, digamos, estruturas. É o caso de começarmos nossos planos, todos, de novo.

Assim, primeiro, você, mulher: a cor da calcinha que vai usar nessa virada. Como é de quinta para a sexta, sugiro uma branquinha com detalhes em verde, com elástico amarelo e uma fitinha vermelha. Você, homem: uma cuequinha simples, branca, que vocês nem se ligam muito nessa, mesmo. E como diria aquela travesti que ficou famosa na internet, tomar uns “bons drink” pode ser uma. Mas sem sair de casa para não cair em nenhuma malha, nem rodoviária, nem policial, nem leonina. Nada de cavalos, também, que estes andam quebrando as costelas da oposição, como se precisasse e elas não quebrassem sozinhas.

O importante será a concentração em termos de boas ideias, mais do que intenções, e pensamentos elevados. Tipo que o inverno não seja rigoroso porque logo já vai ser Dia dos Pais e tudo sobe o preço.
Pensando bem, melhor ser mais geral: concentrar-se contra a inflação que está mesmo afiando as garras.

Vamos olhar para frente, marchar para continuar protestando, e esperar. Temos seis meses pela frente até podermos comemorar outro réveillon, outro despertar.

Como sempre, o melhor é começar tentando manter-se entusiasmado por alguma coisa. Quem sabe o verão?

 

São Paulo, seco como o Saara, cof cof cof, 2011. Por enquanto, 2011.

Homens são assim; mulheres são assadas

maio 28th, 2011

Nada de planetas. Homens de Marte, mulheres de Vênus, essas coisas. Nem vem também com o simplista Irmão Sol, Irmã Lua. Quero saber é se você viu como os homens podem se estrumbicar gostoso nas mãos de uma mulher.

Tenho um amigo que vive me dizendo que os homens não querem nem saber se a mulher é isso, aquilo, se está gorda, tem celulite, pneuzinho. Homem quer é rodar, mesmo com pneu furado. Toda vez que reclamo de algum defeito que encontro em mim, ele repete. “Quem repara nessas coisas é mulher!” Esta semana ouvi mais uma frase lapidar: “Uai, tem gente que parece que não pode mais ver uma mulher feia na frente, que fica um troço impossível”.

Começo a achar que ele tem razão ao ver a foto de Mildred Baena, pivô fora do padrão da separação, depois de 25 anos de casados, de Arnold Schwarzenegger e a bela Maria Shriver. Realmente. O grandalhão bonitão ainda teve um filho, hoje com dez anos, o que parece mostrar que a relação foi continuada; não foi um acidente, e nem ele pode falar que no dia estava bêbado ou sem óculos. Aí, se pensei assim, parei ainda para pensar qual foi a reação da esposa dele, que é uma Kennedy chiquérrima, e em como deve ter sido essa conversa de fim de relacionamento com o Exterminador. “Não tinha coisa melhor?” - tenho certeza de que ela deve ter perguntado. E depois de bater a porta foi procurar o melhor advogado que podia para tratar da separação, ou melhor, do escalpo que fará.

O que se passa na cabeça dos homens? Eu nunca entendi direito. Mas percebo bem o que se passa na cabeça das mulheres. E às vezes coisa boa não é, ó moços e desavisados que são levados por instintos e cabeças que empinam!(Dependendo do caso). Há mulheres envenenadas. Comeu, morreu. Não é por menos que a abelha é rainha, e a aranha, viúva e negra.

Todas as mulheres têm – de alguma forma – seus mitológicos seres internos, e eles aparecem. Uma hora aparecem. E podem não ser só as fadas, elfos, anjos, femmes fatales Podem ser sereias, com o andar de peixe insinuante fora d`água ; dragões vociferando chamas e brasas; bruxas urdindo venenos e vinganças; ou apenas Amélias – que um dia cansam. Um dia a casa cai. Foi o que o Exterminador do Futuro sentiu na pele esses dias¸ com o pé que levou da esposa depois que veio a público o caso com a ex-empregada baranga. É. Baranga, mas quem se deu bem foi ela. Agora pode contar o caso em prosa e verso, investindo e ganhando mais do que um Palocci, e em menor tempo. Veja bem.

Outro caso desses dias beira o paradoxo do ridículo, do nonsense. Homem mundialmente superpoderoso, peladão, numa suíte chiquérrima de hotel de Nova York se encanta com camareira que vê no quarto quando sai do banho, como conta esta quase fábula moderna. Mais: se encanta e quer pegar. Tenta pegar. Pega. O problema é que desta vez ele tinha encontrado um osso mais duro de roer, e acabou preso e exposto em praça pública. Vai perder as calças. O cargo que tinha – e o que poderia ter – foram afogados. O ganso sofreu um entorse. Moral da história: às vezes é melhor só ter um passarinho nas mãos. Nas próprias mãos.

O problema é que em todas essas histórias as mulheres acabam se queimando junto; inclusive junto das esposas, que viram vítimas, e que acabam obrigadas, muitas, a fazer o papel de solidárias e compreensivas quando os casos vão aos tribunais. E logo começam a surgir as teorias e os dedos apontados para os pivôs. “Ela deve ter provocado”, “Agente infiltrada”, “Armação”.

Até nisso é mais difícil quando se é mulher. Lembra da cara de tacho de Hillary Clinton ao ver o marido, o homem mais poderoso do mundo naquele momento, com o charuto na mão, segurando uma gordinha de vestido azul? Será que os homens pensam que mulheres mais comuns, feias, gordas ou outras coisas, ficarão tão felizes com suas cantadas que costurarão a boca depois? Que ficarão agradecidas pelo fato? Outro dia, um idiota, abominável, imperdoável e inominável, daqui mesmo, chegou até a dizer que as mulheres feias tinham de agradecer por ser estupradas. Deve ser isso. Na velha dominação ainda existente, eles acham que são o supra-sumo da cocada. E acabam se dando mal.

São novos tempos. Tempos em que vemos também as mulheres perdendo suas mais incríveis especialidades, sua naturalidade, mas antes de tudo cuidando perigosamente de alguns de seus interesses, divididos entre o amor e o dinheiro. Aqui não se trata mais de meras idiossincrasias dos sexos, ou discussão das relações nos encontros de casais. Trata só da maldade humana, a parte capaz de vender filha, matar mãe, subir de qualquer jeito. Sem ilusões. E quando as ilusões acabam não há mais limites.

Portanto, senhores, cuidado. Uma chave de pernas pode abrir algumas portas. Inclusive para as feias, bruacas e barangas, como vocês a elas se referem, como se fossem, logo vocês, as coisas mais lindas do mundo, Avis Rara.

Os tempos são modernos. Ninguém mais fica só. Tem internet. Tem agência de encontro de iguais ou parecidos. Mulher não sofre mais tanto assim – compra cachorro, gato, preá. Paga e pega. Pega e paga. E só entra na quebrada quando tem certeza, como diria a Ofélia. De que vai levar alguma vantagem, como diria o Gérson.

Afinal, homens são flautas; e as mulheres, pandeiros e violão.

São Paulo, no mês das casadoiras, 2011

Contradições, resistências e rock n`roll

maio 14th, 2011

M.G.

Sou a própria contradição, mas para quem vê e não sabe. Todo mundo tem direito a pelo menos uma contradição nessa vida; jogue pedras e cuspa rãs quem nunca as teve. Claro, elas devem ser moderadas, e, se possível, evolutivas, para melhor, mas não me venham com preconceitos e bobeiras.

Mais uma semana ouvindo que o Bin Laden não morreu, que querem ver o corpinho com as barbas de molho, que o coitadinho, velhinho, estava desarmado, meu saco de paciência estoura. Aliás, ele – o meu saco de paciência – anda meio que mais no limite do que os cestos de lixo espalhados pela cidade, transbordantes, enfeites do descaso urbano pendurados em postes.

Não sei se os surtos vêm da água que bebem, mas tem gente sofrendo de crises infantis do tipo São Tomé, que só acreditam vendo, ou acometidos de gugudadá de muxoxo porque a sociedade civil pressiona e avança, acima da cabeça dos coronéis e pistoleiros e pistoleiras em cargos públicos, eleitos ou indicados pelos seus pares. A decisão tomada pela Supremo, por unanimidade, reconhecendo juridicamente a união de pessoas do mesmo sexo, nos dá certo alento. Algumas gotas pingam das torneiras da Razão.

Ninguém vai obrigar ninguém a casar. Até porque inclusive entre os gays há de praxe uma certa alta rotatividade nas relações, que pode até vir a melhorar. Mas se acabar vai perder a graça. Também não precisa ser gay para entender, apoiar, assim como não é exatamente uma questão religiosa.

Contudo, não é porque sou da Paz que rejeito as regras da guerra. Vivemos em conflito, até com nós mesmos! Padres não viram castrados ao serem ordenados. O desejo chega; não manda recado, nem marca hora. É assim que tudo pode ser, um dia, a nossa realidade, por mais distante que esta pudesse parecer. Não diga dessa água não beberei, com ou sem bolinhas. Se não fui acho que devia ter ido – sempre rola.

A propósito, o tema é respeitar. Mudar, fazer, acontecer, decidir – ou não. Os dias passam. E a libriana aqui se encontra em sua plena piração anual, que acontece de qualquer jeito. A sorte é que ganhei de presente de Deus um espírito mutável.                                                                                                                                                                                 
Antes que esqueça, inclusive, explodam-se as convenções. É o que acho. Sou, no bom sentido, moleca; nasci moleca e moleca permanecerei de espírito. Sempre vivi a contradição entre a imagem que os outros vêem e julgam – e o que sou exatamente. Sofri, apanhei, perdi e acabo sendo sempre muito prejudicada por isso, o que me faz sempre evitar fazer juízos “visuais”. Cansei de ser chamada de maluquinha, meio louquinha, figura, exótica (é, usam muito essa palavra para mim), ou qualquer outro termo apenas idiota ou condescendente que na verdade busca desmerecer-me, mesmo que sem esse claro propósito. Só o velado, o odioso velado.

Escuto. Pisco. Sei. Faço de desentendida para viver. Tento apenas escapar de que não me atrasem ainda mais a vida por isso. Controlar o que posso, mas só posso com o que é declarado, claro. Queria ver é fazerem metade do que faço, da responsabilidade com que encaro as tarefas que me são confiadas, das renúncias que fui e sou obrigada a fazer.

O mundo é dissimulado demais da conta. Pensam que foi fácil chegar até aqui – com vários arranhões, decerto – mas sendo ainda espontânea, otimista e independente? Sem riquezas e posses, sem olhos claros, e de altura pouco mais de metro e meio? Para azar e horror dos que gostam de teses imutáveis, sempre fui estudiosa, sempre fui obediente e boa filha (perguntem por aí, se duvidam), boa irmã, boa amiga, solidária como posso. Trabalho, literalmente, e sem parar, desde os 10 anos de idade, quando pretendi, mas nunca consegui, comprar uma motocicleta, mondo cane. Fui uma das primeiras – ao menos que conheço – a andar de moto, de skate, por aí, e a conviver com garotos sem que isso significasse nada além de amizade. Não havia raça proibida. Nem religião. Nem estado civil, sexo. Ou isso ou aquilo. Sempre optei pelos dois, ou três, ou mais quesitos. (…piscadinha marota…)

Sim, quiseram casar comigo, mas me desvencilhei, segura de que só – eu e minhas contradições – seria feliz, porque também sempre achei no caminho gente querendo é me mudar, me prender, tirar o sorriso de minha boca e o brilho dos meus olhos. Alguns conseguiram. Mas fui buscar de volta a tempo. “Atroz contradição a da cólera; nasce do amor e mata o amor”. (Simone de Beauvoir).

Aos 8 anos de idade, me joguei na lama por odiar uma roupinha de marinheiro branca e engomada que me obrigaram a usar; a partir daí invento minha própria moda. Quando tem gente vindo, já fui e voltei. Fui e voltei. Voltei e fui, mesmo sem sair do lugar. Nem tão solta como quis, mas sempre com os livres e os livros. Amei e amo muito, inclusive casos que duraram algumas décadas, sem ter o amado, apenas o amante, de todas as cores, credos, carteiras, com cabelo ou não. Apenas algo que me encante.

Sou rock n`roll, mas também sou jazz, e pretendo manter a resistência.Tudo é possível, e aqui no Brasil ainda mais, o lado bom de nossa gente.

Somos nós as contradições vivas, e quem é que sabe disso além de nós mesmos?

São Paulo, astral de 2011, quase virando mais um numerozinho do velocímetro