Nossa primavera particular

setembro 21st, 2011

  Adoro. Fica tudo mais bonito, mais colorido e até mais romântico. Sempre tive a impressão de que a primavera era uma estação para, como diz um amigo, “acasalar  muuuitoooo” (ele fala assim, quase como se uivasse).

 

Lá vem ela, cheia de graça, menina, a primavera. Traz consigo o trocadilho antigo do como vai sua prima. Traz um frio e calor e frio e calor, mais temperados. Traz o canto dos pássaros bem mais forte, mas insinuante e cheio de piadinhos aflitos dos filhotes nos ninhos. Traz invariavelmente o que todos os anos chamam tendência: os florais. Este ano, adianto, o quente da estação serão as estampas “Liberty”. Ah! O que é? Esse é o nome dos floridos dos tecidos, mas os que sejam mais delicados, com florzinhas, folhinhas, borboletinhas, toda sorte de inhas, miniaturas delicadas e que nos dêem ou tragam um ar pueril, campônio, de boa gente, natural. Não precisa morrer de rir, não vou tentar mudar seu estilo só porque a Primavera chegou. Você a recebe como bem entender.

Só que primavera é palavra usada o ano inteiro e nem sempre por causa só do ciclo da natureza e do tempo, embora não deixe de ser também. Primavera é sempre renovação. Seja por aqui, mas ultimamente tem sido muito também por lá, pelo Oriente, pelos exóticos mundos das Arábias, Mil e Uma Noites e ditadores cruéis. Se oriente, rapaz, nós já tivemos muitas primaveras revolucionárias e jamais esquecidas. Sempre é tempo de fazer mais uma, e vai ser boa se for para melhorar, para continuar vivendo, para continuar comemorando, contando e colhendo outras primaveras, igual aqueles bichinhos do Pac-Man, nhec, nhec, nhec, comendo pontinhos, desviando os caminhos dos labirintos para não ser engolido.

Sei lá se é muito tempo que estou sem Sol, nem na laje – sem viajar, sem parar. Fica difícil ser otimista e primaveril no meio de adversidades, principalmente para os que têm aguçado espírito crítico, mas não custa tentar. Outro dia, meio friozinho, alguns minutos livres, tirei as meias e pus os pés, só eles, expostos ao Sol que entrava pela janela. É pouco, sei, mas foi o que deu, e a vida é feita de coisas que dão, no bom sentido, se é que me entendem. O que acontece é que a gente nunca sabe dar valor na hora para essas mini “libertys”, iguais às estampinhas que estão na moda, e acaba perde os seus bons efeitos e pequenas oportunidades. No caso, como tenho expressivos dedos dos pés, foi como se eles me agradecessem essa graça, esses instantes de liberdade, fora das grades dos sapatos e meias. As meninas, como chamo os meus dedões, pareciam cantar e dançar, movimentando-se.

Ok, minha capacidade de imaginação aproveitou a viagem e aí eu pensei na praia deserta de meus sonhos, na areia branca e fina, naquela sensação que dá de descarrego, literalmente, quando pisamos descalços na areia, quando mergulhamos na água salgada do mar. Foram minutos importantes, e pensei também que poderíamos, em tese, todos, buscá-los, porque independem de poderes ou recursos. São “socializados”, mas só os seres do bem, valor imaterial, podem enfim obtê-los. Tais Como algumas mitologias onde – aos heróis, que têm um dom e uma meta positiva – os deuses propiciam sensações, vitórias e até o renascimento nos caminhos, nos designios. Será o tal prometido Reino dos Bons?

A primavera, por aqui, também nos lembra que mais um ano vai acabar, que aquele cara de vermelho e de barba vai fazer rôrôrô bem na nossa cara daqui a alguns dias, pedindo que o sigamos em compras e gastos e presentes, fazendo-nos acreditar que esse país está uma belezura. Não, não é o Lula esse cara, embora o próprio Papai Noel deva ter se inspirado no esbanjar de considerações de maravilhas que o ex-presidente agora teima em fazer pelo mundo. Sem renas; só com bons jatinhos, emprestados por pessoas boas, desinteressadas, e que ainda depositam recursos nos saquinhos da boa vontade.

Bem-te-vi, bem-te-vi! Se eu, que moro no meio de um animado centro urbano, consigo ouvir o apelativo som dos passarinhos que buscam atrair parceiras para a festa da primavera, imagino que há nesse mundo muitos que podem ouvir muito mais do que isso, fazer muito mais do que eu consigo. Imagino uma Revolução dos Bichos, mas bem-sucedida, ao contrário da descrita por George Orwell. Ali, as boas intenções acabaram virando o que a sociedade é mesmo. A realidade de um emaranhado de animais até mudando mandamentos ao seu bel prazer.

Parem de buzinar tanto, que quero ouvir a natureza! Se querem gritar, usem suas próprias vozes. Se querem fazer algo, façam, aproveitem a renovação. No silêncio dos sons da natureza, quem sabe, melhor do que primavera, fim de ano, você não vislumbre um carnaval? Acho que quando compôs O Carnaval dos Animais, em umas férias de 1886, Saint-Saëns fez exatamente isso.

E passou para a eternidade.

 

 

São Paulo, difícil se isolar, Primavera 2011, efeitos especiais

Redemoinhos…

agosto 7th, 2011

… eles são inevitáveis. Igual buraco de bueiro nas ruas. Se a ponta do pé entrou em um, o Tempo – durante um tempo – se estenderá de forma diferente até tudo acabar de girar, se é que um dia acaba, se você não tonteou no caminho, se ele não engolfar tudo Ventos, ventos, ventos, às vezes tenho verdadeiro pavor deles. Quando zumbem na janela, quando forçam portas e janelas, quando cantam e atiçam as vidraças. Quando varrem em direções variadas, chacoalhando como se quisessem arrancar tudo, sem muitas delicadezas, o que já estava alquebrado, cansado, prestes a ir. Com o vento as coisas se aceleram, andam mais rápido, são instadas a se mover. Na vida os ventos podem ser suaves, brisas modorrentas, ou sopros mais fortes. Mas no nosso caminhar aqui neste chão encontramos de quando em quando o que poderíamos definir quase como buracos para o infinito, fendas de vento, exatas e cruéis: os redemoinhos. É aquele momento que a melhor descrição seria pedir para você se imaginar dentro de uma máquina de lavar roupa naquela hora “centrífuga”, que tira as últimas gotinhas de água das roupas, torce, e dá umas batidas para a própria roupa ter certeza que tem de soltar toda a sujeira ali, naquele ciclo. E sair limpinha, renovada, pronta para a próxima combinação de vestuário. Fins de relacionamentos, decisões urgentes a tomar, correr para tirar o rabo da janela, escapar de sacanagens e armadilhas, principalmente quando fazem surpresa, são redemoinhos, torvelinhos. Desde menina admiro suas formas, ouço contar as histórias, lembro de terem me dito que havia um ali no mar de Santos, perto de onde eu fazia castelos de areia com meus baldinhos e moldes coloridos e me sentia segura longe dele. Será por causa dessa imagem que demorei tanto a perder o medo, e nunca deixei o receio das águas do mar? Os redemoinhos nascem em dias quentes, de muito sol, e estranhamente, em dias sem vento. E, pelo menos os de areia, podem ser pequeninos de poucos centímetros a monstros de muitos metros de altura e força. A fantasia diz que o saci se esconde em seu interior. Os matutos quando viam o redemoinho acreditavam que ele era o rastro da passagem do Saci-Pererê com seu cachimbinho maluco. Noutros cantos, acham que é o próprio diabo andando pelos campos. Lobato escreveu sobre a crença de que se alguém entrasse no meio do redemoinho munido com uma garrafa e uma peneira conseguiria capturar ou saci ou diabo ou autor do turbilhão. Mas, agora, pesquisando, acabaram com a minha fantasia. Olha só o desmancha-prazeres: “Na verdade o que acontecia é que ao entrar no meio do redemoinho, a pessoa pode interromper a corrente de convecção que alimenta o sistema, e o redemoinho “simplesmente desapareceria”. Para tudo tem explicação. Bom, eu não quero mesmo caçar sacis; quero apenas sair viva e inteira dos redemoinhos que encontro. Eu, só, não. Todo mundo. Pessoas e países vira e mexe se defrontam com situações que – não tem jeito – dali, só dá para ir em frente, sem recuar, sem fugir. Não estão vendo as primaveras dos países que viviam em longos invernos? Não estão vendo um gigante com a unha encravada, gritando ui,ui? Jogue uma pedrinha na água e observe as ondas crescentes, perturbando até onde alcança o deslizar dos círculos que procria. Assim é até voltar ao normal, com a pedra no fundo, engolida e absorvida pela superfície. Vórtices. Fenômenos da natureza são danados para colar em sabedorias, principalmente as mais bonitas, vindas do Oriente. Sabia que, para os orientais, o redemoinho – ou aquela espiral de cabelos que todos temos no alto da cabeça(tá bom, os hoje carecas não têm mais, mas já tiveram) é a origem da vida e representa a entrada da força do Céu no corpo? Para eles é a partir dos redemoinhos que o corpo se desenvolve, e tem gente que possui duas ou mais espirais no cucuruco. Dizem ainda que, no geral, a parte da frente da cabeça é mais “Yin”, feminina, suave, enquanto que a parte posterior é mais “Yang”, masculina. Corre no espelho para ver. Eles ensinam que, se o redemoinho começa em direção à fronte, a pessoa é mais Yin. Se o redemoinho começa em direção à nuca, a pessoa é mais Yang. Se o redemoinho está bem no centro da cabeça, seria o sinal – olha que legal! – de que Yin e Yang estavam harmonizados no momento do nascimento. Ou seja, os seus pais estavam em harmonia física e mental, fizeram você bem gostoso, no bembom. Essa pessoa feita assim teria maior tendência para as artes, pensamento profundo, harmonia e equilíbrio em geral. Se o redemoinho está à direita da cabeça indicaria disposição ativa e tendência para a vida prática, bem Yang. Se o redemoinho está à esquerda da cabeça indica uma visão objetiva, analítica e um pensamento sistematizado, mais Yin. Agora que eu até já estou daqui só vendo você aí com o dedinho apalpando e procurando onde é o nascedouro do seu próprio redemoinho, vou indo. Mas vou dar uma voltadinha. Sabe o que eu achei também? Teve um cabeção, que nem vem ao caso, que resolveu fazer uma pesquisa e lançar uma tese de suas suposições. Ele diz que parece que os homens gays têm quatro vezes mais redemoinhos no topo da cabeça, na direção oposta ao sentido dos ponteiros do relógio do que a população em geral.

Força na peruca!

 São Paulo, agostos ao gosto, 2011

O Coelho da Alice…

julho 4th, 2011

Lembro sempre do coelho da Alice, aquele que comemora desaniversários todos os dias. Mas no caso falaremos é de deselegâncias, que o povo anda fazendo a torto e direito todos os dias. Tem também umas manias…

Encontros marcados e desmarcados em cima da hora, como se não fizéssemos mais nada a não ser sempre estar à disposição, com um tapete vermelho, pronto a ser estendido. Respostas prometidas que nunca chegam. Projetos solicitados para “ontem” que se desintegram no ar junto com quem pediu. Ando notando e anotando que – digamos – a “etiqueta”, a mínima, a básica, a da educação, virou mesmo uma coisa fora de moda.

Se isso ocorre habitualmente no mundo empresarial, onde sempre há algum dinheiro envolvido, deve andar muito pior ainda no convívio social. Nem é mais o caso do tal telefonema do dia seguinte que as mulheres (como se não acontecesse com os homens) tanto esperam. Esse já virou mito. Lembro que chegava a ficar tirando o telefone do gancho toda hora para ver se ele estava funcionando mesmo, queria ouvir o barulho da linha, e era capaz de brigar feio se alguém ousasse “ocupar” o aparelho. Sempre achava que exatamente naquela hora a pessoa ia ligar, ia dar ocupado, e baubau. Quando não havia tanta tecnologia nos sujeitávamos a cada uma! E nem vem: você também já fez isso. Apenas admita.

Agora não, já estamos na sala da Casa da Mãe Joana, e com os pés em cima da mesa. Se nego diz que vai ligar, bah! ninguém mais nem acredita mesmo, tal é a esbórnia. E logo agora que não há mais tantos álibis de dificuldades com o advento do celular, SMS, caixa postal, orelhões, telefone sem fio, fora redes sociais, etc. Outro dia me toquei de uma morte horrível – que não chegou a ser registrada e lamentada – e de uma coisa que, pelo menos para mim, era parte da “família”: a coitada da secretária eletrônica, que sempre levava culpa por alguma coisa, ou por pegar o recado e não transmitir, assim como falhar justamente quando não podia, às vezes por mera falta de luz. Eu amava minha recadeira. Hoje, a aposentei. Ela, que ficava em casa quando eu ia trabalhar; e o telefone fixo, aliás, aposentado junto.

Agora também todo mundo mente, na cara dura. O que é pior, contando com a ajuda da péssima qualidade dos serviços públicos que realmente estão inacreditáveis – e eu sei por que me obrigo a usar pelo menos duas operadoras para me garantir. Mesmo assim, toda hora tem um esperto (a) tentando! Você pode ter passado o dia atendendo o celular, de um monte de gente, parado em um mesmo lugar, sem nem passar em túneis. E quando pergunta por que AQUELA pessoa não ligou, a resposta, invariável. “Eu liguei, mas não dava sinal”. Ou, pior: “Liguei, mas caiu na caixa postal”. Carambas, Caracas, caracolas: para o que serve a “!%#@+*” da tal caixa postal? Não foi criada exatamente para pegar a mensagem?

Ou as pessoas são tão tímidas que não conseguem falar com a boca no microfone? O que custa?…hum hum

Enfim, deve ser moda. Outra: você dá passagem para o sujeito atravessar na rua, e ele vai lento, balançando a bunda, olhando pra sua cara com certo ar bovino; isso quando não atravessa a rua de costas, na diagonal e ainda te xinga se bobear. Tem essa, outra, o de se fazer de bobo para viver, de desentendido: você pergunta uma coisa, ou observa algo, vê claramente que a pessoa ouviu muito bem, mas esta, talvez por hábito, “ganha tempo” e devolve: “Hein? Hein? Como? O que disse?”

Só pode ser moda. Você, recheado de razão, vai reclamar de algo. Por exemplo, com o síndico. Ou com a empregada de casa. No trabalho. Na loja. E o que acontece? O outro lado vem e te despeja uma história que não tem nada, nadica de pitibiriba, a ver com o caso, em geral mais triste do que a crucificação de Cristo, ou para justificar, ou para te deixar com a cabeça caída. Responde, mas mandando tal carga negativa que você tem vontade é de sair dali voando e se internar num convento, passar a cuidar apenas de atividades filantrópicas, doar tudo o que tem. Agora, aprendi: fez isso? Ah, vai ouvir um cabedal, uma cachoeira, um rio caudaloso de problemas porque aí recolho todos – os que eu já tive, tenho e talvez terei, ou li sobre em algum lugar; peço emprestado os problemas dos amigos e afins, criando mais detalhes verdadeiramente escabrosos, pingando sangue, suor e lágrimas. Ora, façam-me um favor!

Deve ser. Deve ser moda. Só pode ser. Ou bactéria. Pegou na política também. Petistas e simpatizantes andam batendo verdadeiros recordes nisso, em torcer a porca, mudar o foco quando são flagrados, explicar que não é bem assim, “ô gente ruim”! Não há assunto, denúncia, fato comprovado que apareça que eles não digam que tudo não passa de mera invenção da mídia conservadora burguesa que não quer deixar que acabem as injustiças sociais e pretende detonar as grandes conquistas dos trabalhadores, travar o desenvolvimento e o crescimento da Pátria. Todas, claro, vantagens obtidas apenas por ele, O Criador, claro, O Lula, quando o mundo começou – não sei se você sabe, fato que ocorreu apenas em 2002, Ano da Assunção. No futuro não haverá arqueólogo, sociólogo, que entenda essa Era, nem chupando os ossinhos que escavarem.

Impressionante. E eu achando que já tinha visto de tudo.

 

 

São Paulo, 2011, 9 anos DDP (Depois Deles no Poder).

Feliz Ano Novo, e que tudo se realize…

junho 29th, 2011

M.G.

  …no semestre que vai chegar! Acabou a primeira fase de 2011. Foi tudo muito rápido, meu bem, e não deu tempo nem de sentir prazer. Vamos, então, festejar o réveillon do segundo semestre, para ver se pelo menos agora vai.

É hábito de muitos anos. Sempre comemoro, mesmo que em silêncio, o que chamo de réveillon do segundo semestre, e é agora, esta semana. Voou; não passou. Chegou julho. O tempo, esse maluco, anda parecendo motoqueiro furando trânsito em São Paulo – não respeita mais nada, nem ninguém, nem qualquer previsão ou expectativa. É cruel: comigo, com você, com as contas, com a Dilma, e também com a leseira dos tais preparativos para a Copa, que já estão dando no saco.

Tudo parece que foi ontem. A chegada do ano e sua presidente, com seus porquinhos, brancas-de-neve e cinderelas, além dos personagens eternos, como o Mordomo, o Bigode, o Empertigado e, claro, O Barba. Muitos não ficaram nem até a meia-noite na festa, e a lua-de-mel com o povo quase dura menos do que as do Fábio Jr. Tem bruxinhas voando para todos os lados, e se há alguém que não acredita em duendes, até pode ser. Mas aloprados há aos montes. Desgovernados, todos nós. E alucinados, lunáticos, despropositados e afins andam procriando mais do que os embriões manuseados por aquele médico maluco que nos deu uma banana, literalmente, e fugiu por aí.

Os tais grandes eventos, que não sei mais quem ainda acredita que vão mudar nossa situação, já faz tempo que foram anunciados. Que preguiça! E? Nada. Aeroportos, estradas, serviços, comunicações e todos os etceteras continuam lentos, quase parando, piorando, sigilosos, e já nem mais é segredo por quê. Contrato bom é contrato feito de emergência. Foi um brasileiro quem – quase certo – inventou a máxima: no fim, tudo dá certo. Só pode ter sido. E nem sempre é verdade, também sabemos.

Nesses primeiros seis meses assistimos foi a muitas desgraças, cruz credo. Enchentes, deslizamentos, inundações, acidentes, desgovernos, denúncias, corrupções & bandalheiras, barrancos e barracos vindo abaixo. Lá de fora recebemos uns borrifos de sangue de Osama, cinzas de vulcão, ares carregados de medo, inclusive nucleares, tremores e deslocamentos de terra e da Terra, bactérias-monstro, notícias de primaveras de liberdade que até agora não deram flores.

Precisamos de um descarrego. Não, não é preciso criar mais um ministério para isso, calma. Já viu que agora tudo o que a gente fala ou pede perigas virar mais um órgão público onde sentam um apaniguado de algum partido ou de alguém? Temo que eles estejam precisando de mais espaços. Melhor ficar junto à parede. Porque até siglas são pomposas. Que tal, por exemplo, a Autoridade Pública Olímpica? APO. APOlogia, para políticos APOsentados, ou APOiados em APOstas que dão com os burros n`água. De autoridades estamos é cheios.

Pela frente serão só mais seis meses para chamarmos de nossos. Ano que vem tem eleições de novo, e então seremos mais uma vez invadidos por aquela estranha sensação de sentir alguéns passando a mão em algumas partes de nossas, digamos, estruturas. É o caso de começarmos nossos planos, todos, de novo.

Assim, primeiro, você, mulher: a cor da calcinha que vai usar nessa virada. Como é de quinta para a sexta, sugiro uma branquinha com detalhes em verde, com elástico amarelo e uma fitinha vermelha. Você, homem: uma cuequinha simples, branca, que vocês nem se ligam muito nessa, mesmo. E como diria aquela travesti que ficou famosa na internet, tomar uns “bons drink” pode ser uma. Mas sem sair de casa para não cair em nenhuma malha, nem rodoviária, nem policial, nem leonina. Nada de cavalos, também, que estes andam quebrando as costelas da oposição, como se precisasse e elas não quebrassem sozinhas.

O importante será a concentração em termos de boas ideias, mais do que intenções, e pensamentos elevados. Tipo que o inverno não seja rigoroso porque logo já vai ser Dia dos Pais e tudo sobe o preço.
Pensando bem, melhor ser mais geral: concentrar-se contra a inflação que está mesmo afiando as garras.

Vamos olhar para frente, marchar para continuar protestando, e esperar. Temos seis meses pela frente até podermos comemorar outro réveillon, outro despertar.

Como sempre, o melhor é começar tentando manter-se entusiasmado por alguma coisa. Quem sabe o verão?

 

São Paulo, seco como o Saara, cof cof cof, 2011. Por enquanto, 2011.

Homens são assim; mulheres são assadas

maio 28th, 2011

Nada de planetas. Homens de Marte, mulheres de Vênus, essas coisas. Nem vem também com o simplista Irmão Sol, Irmã Lua. Quero saber é se você viu como os homens podem se estrumbicar gostoso nas mãos de uma mulher.

Tenho um amigo que vive me dizendo que os homens não querem nem saber se a mulher é isso, aquilo, se está gorda, tem celulite, pneuzinho. Homem quer é rodar, mesmo com pneu furado. Toda vez que reclamo de algum defeito que encontro em mim, ele repete. “Quem repara nessas coisas é mulher!” Esta semana ouvi mais uma frase lapidar: “Uai, tem gente que parece que não pode mais ver uma mulher feia na frente, que fica um troço impossível”.

Começo a achar que ele tem razão ao ver a foto de Mildred Baena, pivô fora do padrão da separação, depois de 25 anos de casados, de Arnold Schwarzenegger e a bela Maria Shriver. Realmente. O grandalhão bonitão ainda teve um filho, hoje com dez anos, o que parece mostrar que a relação foi continuada; não foi um acidente, e nem ele pode falar que no dia estava bêbado ou sem óculos. Aí, se pensei assim, parei ainda para pensar qual foi a reação da esposa dele, que é uma Kennedy chiquérrima, e em como deve ter sido essa conversa de fim de relacionamento com o Exterminador. “Não tinha coisa melhor?” - tenho certeza de que ela deve ter perguntado. E depois de bater a porta foi procurar o melhor advogado que podia para tratar da separação, ou melhor, do escalpo que fará.

O que se passa na cabeça dos homens? Eu nunca entendi direito. Mas percebo bem o que se passa na cabeça das mulheres. E às vezes coisa boa não é, ó moços e desavisados que são levados por instintos e cabeças que empinam!(Dependendo do caso). Há mulheres envenenadas. Comeu, morreu. Não é por menos que a abelha é rainha, e a aranha, viúva e negra.

Todas as mulheres têm – de alguma forma – seus mitológicos seres internos, e eles aparecem. Uma hora aparecem. E podem não ser só as fadas, elfos, anjos, femmes fatales Podem ser sereias, com o andar de peixe insinuante fora d`água ; dragões vociferando chamas e brasas; bruxas urdindo venenos e vinganças; ou apenas Amélias – que um dia cansam. Um dia a casa cai. Foi o que o Exterminador do Futuro sentiu na pele esses dias¸ com o pé que levou da esposa depois que veio a público o caso com a ex-empregada baranga. É. Baranga, mas quem se deu bem foi ela. Agora pode contar o caso em prosa e verso, investindo e ganhando mais do que um Palocci, e em menor tempo. Veja bem.

Outro caso desses dias beira o paradoxo do ridículo, do nonsense. Homem mundialmente superpoderoso, peladão, numa suíte chiquérrima de hotel de Nova York se encanta com camareira que vê no quarto quando sai do banho, como conta esta quase fábula moderna. Mais: se encanta e quer pegar. Tenta pegar. Pega. O problema é que desta vez ele tinha encontrado um osso mais duro de roer, e acabou preso e exposto em praça pública. Vai perder as calças. O cargo que tinha – e o que poderia ter – foram afogados. O ganso sofreu um entorse. Moral da história: às vezes é melhor só ter um passarinho nas mãos. Nas próprias mãos.

O problema é que em todas essas histórias as mulheres acabam se queimando junto; inclusive junto das esposas, que viram vítimas, e que acabam obrigadas, muitas, a fazer o papel de solidárias e compreensivas quando os casos vão aos tribunais. E logo começam a surgir as teorias e os dedos apontados para os pivôs. “Ela deve ter provocado”, “Agente infiltrada”, “Armação”.

Até nisso é mais difícil quando se é mulher. Lembra da cara de tacho de Hillary Clinton ao ver o marido, o homem mais poderoso do mundo naquele momento, com o charuto na mão, segurando uma gordinha de vestido azul? Será que os homens pensam que mulheres mais comuns, feias, gordas ou outras coisas, ficarão tão felizes com suas cantadas que costurarão a boca depois? Que ficarão agradecidas pelo fato? Outro dia, um idiota, abominável, imperdoável e inominável, daqui mesmo, chegou até a dizer que as mulheres feias tinham de agradecer por ser estupradas. Deve ser isso. Na velha dominação ainda existente, eles acham que são o supra-sumo da cocada. E acabam se dando mal.

São novos tempos. Tempos em que vemos também as mulheres perdendo suas mais incríveis especialidades, sua naturalidade, mas antes de tudo cuidando perigosamente de alguns de seus interesses, divididos entre o amor e o dinheiro. Aqui não se trata mais de meras idiossincrasias dos sexos, ou discussão das relações nos encontros de casais. Trata só da maldade humana, a parte capaz de vender filha, matar mãe, subir de qualquer jeito. Sem ilusões. E quando as ilusões acabam não há mais limites.

Portanto, senhores, cuidado. Uma chave de pernas pode abrir algumas portas. Inclusive para as feias, bruacas e barangas, como vocês a elas se referem, como se fossem, logo vocês, as coisas mais lindas do mundo, Avis Rara.

Os tempos são modernos. Ninguém mais fica só. Tem internet. Tem agência de encontro de iguais ou parecidos. Mulher não sofre mais tanto assim – compra cachorro, gato, preá. Paga e pega. Pega e paga. E só entra na quebrada quando tem certeza, como diria a Ofélia. De que vai levar alguma vantagem, como diria o Gérson.

Afinal, homens são flautas; e as mulheres, pandeiros e violão.

São Paulo, no mês das casadoiras, 2011

Contradições, resistências e rock n`roll

maio 14th, 2011

M.G.

Sou a própria contradição, mas para quem vê e não sabe. Todo mundo tem direito a pelo menos uma contradição nessa vida; jogue pedras e cuspa rãs quem nunca as teve. Claro, elas devem ser moderadas, e, se possível, evolutivas, para melhor, mas não me venham com preconceitos e bobeiras.

Mais uma semana ouvindo que o Bin Laden não morreu, que querem ver o corpinho com as barbas de molho, que o coitadinho, velhinho, estava desarmado, meu saco de paciência estoura. Aliás, ele – o meu saco de paciência – anda meio que mais no limite do que os cestos de lixo espalhados pela cidade, transbordantes, enfeites do descaso urbano pendurados em postes.

Não sei se os surtos vêm da água que bebem, mas tem gente sofrendo de crises infantis do tipo São Tomé, que só acreditam vendo, ou acometidos de gugudadá de muxoxo porque a sociedade civil pressiona e avança, acima da cabeça dos coronéis e pistoleiros e pistoleiras em cargos públicos, eleitos ou indicados pelos seus pares. A decisão tomada pela Supremo, por unanimidade, reconhecendo juridicamente a união de pessoas do mesmo sexo, nos dá certo alento. Algumas gotas pingam das torneiras da Razão.

Ninguém vai obrigar ninguém a casar. Até porque inclusive entre os gays há de praxe uma certa alta rotatividade nas relações, que pode até vir a melhorar. Mas se acabar vai perder a graça. Também não precisa ser gay para entender, apoiar, assim como não é exatamente uma questão religiosa.

Contudo, não é porque sou da Paz que rejeito as regras da guerra. Vivemos em conflito, até com nós mesmos! Padres não viram castrados ao serem ordenados. O desejo chega; não manda recado, nem marca hora. É assim que tudo pode ser, um dia, a nossa realidade, por mais distante que esta pudesse parecer. Não diga dessa água não beberei, com ou sem bolinhas. Se não fui acho que devia ter ido – sempre rola.

A propósito, o tema é respeitar. Mudar, fazer, acontecer, decidir – ou não. Os dias passam. E a libriana aqui se encontra em sua plena piração anual, que acontece de qualquer jeito. A sorte é que ganhei de presente de Deus um espírito mutável.                                                                                                                                                                                 
Antes que esqueça, inclusive, explodam-se as convenções. É o que acho. Sou, no bom sentido, moleca; nasci moleca e moleca permanecerei de espírito. Sempre vivi a contradição entre a imagem que os outros vêem e julgam – e o que sou exatamente. Sofri, apanhei, perdi e acabo sendo sempre muito prejudicada por isso, o que me faz sempre evitar fazer juízos “visuais”. Cansei de ser chamada de maluquinha, meio louquinha, figura, exótica (é, usam muito essa palavra para mim), ou qualquer outro termo apenas idiota ou condescendente que na verdade busca desmerecer-me, mesmo que sem esse claro propósito. Só o velado, o odioso velado.

Escuto. Pisco. Sei. Faço de desentendida para viver. Tento apenas escapar de que não me atrasem ainda mais a vida por isso. Controlar o que posso, mas só posso com o que é declarado, claro. Queria ver é fazerem metade do que faço, da responsabilidade com que encaro as tarefas que me são confiadas, das renúncias que fui e sou obrigada a fazer.

O mundo é dissimulado demais da conta. Pensam que foi fácil chegar até aqui – com vários arranhões, decerto – mas sendo ainda espontânea, otimista e independente? Sem riquezas e posses, sem olhos claros, e de altura pouco mais de metro e meio? Para azar e horror dos que gostam de teses imutáveis, sempre fui estudiosa, sempre fui obediente e boa filha (perguntem por aí, se duvidam), boa irmã, boa amiga, solidária como posso. Trabalho, literalmente, e sem parar, desde os 10 anos de idade, quando pretendi, mas nunca consegui, comprar uma motocicleta, mondo cane. Fui uma das primeiras – ao menos que conheço – a andar de moto, de skate, por aí, e a conviver com garotos sem que isso significasse nada além de amizade. Não havia raça proibida. Nem religião. Nem estado civil, sexo. Ou isso ou aquilo. Sempre optei pelos dois, ou três, ou mais quesitos. (…piscadinha marota…)

Sim, quiseram casar comigo, mas me desvencilhei, segura de que só – eu e minhas contradições – seria feliz, porque também sempre achei no caminho gente querendo é me mudar, me prender, tirar o sorriso de minha boca e o brilho dos meus olhos. Alguns conseguiram. Mas fui buscar de volta a tempo. “Atroz contradição a da cólera; nasce do amor e mata o amor”. (Simone de Beauvoir).

Aos 8 anos de idade, me joguei na lama por odiar uma roupinha de marinheiro branca e engomada que me obrigaram a usar; a partir daí invento minha própria moda. Quando tem gente vindo, já fui e voltei. Fui e voltei. Voltei e fui, mesmo sem sair do lugar. Nem tão solta como quis, mas sempre com os livres e os livros. Amei e amo muito, inclusive casos que duraram algumas décadas, sem ter o amado, apenas o amante, de todas as cores, credos, carteiras, com cabelo ou não. Apenas algo que me encante.

Sou rock n`roll, mas também sou jazz, e pretendo manter a resistência.Tudo é possível, e aqui no Brasil ainda mais, o lado bom de nossa gente.

Somos nós as contradições vivas, e quem é que sabe disso além de nós mesmos?

São Paulo, astral de 2011, quase virando mais um numerozinho do velocímetro

Vamos tentar falar calma e mansamente.

maio 2nd, 2011

M.G.

Mas se nos exaltarmos, pedimos desculpas de antemão. Vamos enumerar uns fatos dos últimos dias, em busca de algum ouvido que não seja mouco, e que entenda quão feia está a coisa, o quanto estamos chateados em sermos feitos de cordeiros calados, vistos como uma platéia cativa e silenciosa. Cadê o gerente da Taberna Brasil?

Vamos tomar satisfação, como se dizia antigamente, lembra? Pais sempre iam tomar satisfação quando seus filhos sofriam alguma coisa. Lembro de minha mãe subindo nas tamancas por mim, e de uma vez que ela enfrentou a mãe de uma amiga, que era uma bruxa da sociedade assim tipo Marta. A filha, coitadinha, penava, e a riqueza era o problema. Soube mais tarde que a herdeira destituiu a própria mãe quando alcançou 18 anos e como prometera que faria no tal dia da encrenca.

Estamos mais ou menos assim: enchendo o baldinho até o dia que ele vai transbordar. Um perigo. Quando isso acontecer vai sobrar para tudo quanto é lado, mas seria bom se conseguíssemos nos fazer ouvir antes disso. Seria bom para todo mundo. E não me venham falando em luta de classes, brigas partidárias, tucanos e estrelinhas, nem tentem desmerecer quem aponta. Não é porque é petista que tem de ser chucro; não é porque é tucano que tem que ficar em cima do muro. Não é porque é militar que pode tudo. É preciso apenas ser contemporâneo, suprapartidário, cidadão, ecumênico, patriota, ter amor à vida, querer um futuro mais desenvolvido e respeitável, um mundo melhor. Somos nós essa massa a clamar: CHEGA!

Sabe? Me diga se não estamos com muita vontade de pegar uns caras pelo colarinho e chacoalhar? Chacoalhar muito? Escuta aqui, está pensando que somos o quê? O tal Roberto Requião, por exemplo, que envergonha hoje a palavra senador tanto quanto envergonhou outras vezes a palavra governador, político, paranaense. Apodera-se do gravador de um repórter, ameaça bater nele, e ainda sai se vangloriando por isso. Apaga a fita e ainda canta de galo? Roubo e violação = crime. Censura=crime. Ameaça física=crime. E ele ainda ousou dizer na tribuna, que deveria ser sagrada, que “era provocação” (o garoto perguntava das aposentadorias que ele põe no bolso quando o monstro atacou), que está sendo vítima de bullying por parte da imprensa?

Deus que me perdoe – que há anos tive um confronto com ele e sei do que é capaz – mas fico pensando se um cara desses ousasse tocar em algo meu. Caneta, gravador, celular, fone de ouvido, fivela de cabelo ou um grampo enferrujado. As minhas unhas virariam garras de adamantium imediatamente. Ele ia ter que me sacudir do seu pescoço, como se eu fosse um colar de pérolas, tão grudada que eu ia estar nesses ossos. Isso na melhor das hipóteses, de eu me defender começando por cima.

Aí – veja bem que tudo isso nesses últimos dias – o outro, o de bigodes, com seus marimbondos de fogo encarapitados em todos os escalões, vem e diz que não deve ter sido nada, que esse sujeito truculento é um “cavalheiro”. Para acabar de cuspir em nossa cara indica um amigo cheio de defeitos para presidir a tal Comissão de Ética. E essa ainda terá entre um de seus membros aquele cavalheiro tão inocente, aquele anjo de candura, tão puro, de ações tão delicadas quando elefantes pisando na relva, Renan Calheiros.

Essas marcas marrons estão no tapete azul do Senado; não dá para passar e não pisar. Do outro lado, onde os tapetes são verdes, entre outros exemplos, há também marcas de sangue, do ódio e do preconceito que tem levado a vida de tantos de nós. Uma “bancada da bala” orgulhosa das relações com os fabricantes de armas. E ali vive também uma antiga erva daninha, o troglodita Jair Bolsonaro. Pensam que ele parou? Andou falando agora que sofre de preconceito heterossexual. Pode? Depois o chamam de enrustido e ele baba. Racismo=crime. Homofobia=crime. Não sei como ele não fez como o outro que mandou a gente se lixar!

E são eleitos e reeleitos, e não há informações e uma investigação clara de exatamente por que o conseguem, como, que métodos, que persuasão, que grupo representam, quem os financia e a quem interessam suas existências vis em locais-chave. Vem ano, sai ano e todos continuam lá. Fichas (es) corridas. E vamos levando até que aconteça algo mais grave, e aí a gente ficará se lamentando, escrevendo históricos, análises, críticas e manchetes.

Tudo tem limite. Fossem só estes os nossos problemas, acho até que poderia ficar chato. Mas, não. As companhias telefônicas, de energia, planos de saúde, seguros e outras nos tratam como escravos, de forma degradante, mantendo-nos amarrados aos pés das suas ricas mesas. Se ficar o bicho come; se correr, o bicho pega. Mas não há nem para onde. O tilintar das moedas só toca com as nossas sendo despendidas, na gasolina que não ia aumentar, nos preços que espicham sem controle, nas promessas que não vão ser cumpridas é nunca.

É a Taberna Brasil na melhor forma. O esculacho total. A ponto de lembrar um filme de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino às vezes, mas sem os gerentes que jogam porta afora pelos fundilhos os que exageram. Na verdade, recordei de uma cena antológica de Um drink no Inferno, onde o porteiro anuncia que ali havia mulheres de todo o tipo, enumerando-as durante minutos pela vagina, suas cores, formas, nomes.

Na Taberna Brasil, sem direção alguma, o porteiro gritaria um sem-número de verdades para nos definir, dizer como estamos nos comportando dentro desse boteco, assistindo paralisados aos shows no palquinho.

E garanto, nenhum desses nomes seria bom ou divertido como os do filme.

 

Lembro que essa história de Copas, Olimpíadas e aeroportos, trem-bala ainda vai dar pano para muita gente costurar smokings. Que temos um brasileiro preso em condições muito estranhas nos EUA. Que há muito pouco reconstruído das nossas tragédias. Que Delúbio voltar ao PT não fará a menor diferença para nós. E que o casamento já acabou. Inclusive o de certos partidos.

 

 

São Paulo, 2011, vivendo um campo de bate-bocas políticos inúteis, com tanta coisa para se fazer

Os nossos véus mascarados

abril 15th, 2011
 
 Observemos como todos nós usamos véus e máscaras e estamos nos escondendo atrás de murinhos- celulares, fones de ouvido, cara fechada…

Basta olhar pelas ruas. É impressionante. Todo mundo com aquele celular achatado na orelha, o cotovelo levantado segurando, parecendo uma asinha quebrada. Tendo o personagem uma queda para o lado arco-íris, fica até jeitoso ver aquele desmunhecar todo ao telefone. Nas cidades grandes as pessoas precisam quase enfiar o telefone no ouvido para escutar, e mal. Nos carros daqui a pouco vão instalar piloto automático, para que os motoristas (!) possam falar ao celular sem segurar a direção, nem prestar atenção em nada, essas coisas tão chatas. Com a outra mão podem…, sei lá… fumar! Escrever um tratado no IPad. Futucar o GPS. Tirar pelo da sobrancelha.

Mas não é exatamente a tecnologia o nosso tema. São os véus. Os diáfanos véus. Ou os pesados e primitivos véus. Ou os dissimulados véus que inventamos para nos esconder uns dos outros. Cada vez mais. Vivemos numa época tão despropositada que um país como a França estabelece uma lei que proíbe as mulheres muçulmanas de portar seus véus. Está multando. Prendendo. Hipocrisia pouca é bobagem. Conseguem ver leis mais idiotas do que as que proíbem roupas? Você é do tempo em que isso acontecia aqui? Pois houve esse tempo, fique sabendo.

Vamos então proibir nossas freiras, nossas monjas. Proibir as mulheres-coluna, com aquelas saias compridas que certas denominações evangélicas exigem, junto com cabelos lá no pé. Vamos arrancar a cabeça das orixás dos terreiros, os turbantes das baianas. Proibir a Colombina dos salões. Aproveitamos e proibiremos também plásticas radicais, enchimentos “rugo-alisantes”, plantação de silicone nas montanhas, tintura de cabelo. Claro, perucas, nem pensar!

Não são de certa forma véus? Coberturas que podem tornar alguém irreconhecível? Penso que só pode ser esse o motivo francês. Medo que por debaixo daqueles panos todos esteja (e poderá estar) uma bombshell deslumbrante. Ou uma bomba na mulher. Se não for, se for só para encher o saco de quem tem o credo e o hábito, desculpe, mas é ridículo. Ou pensarão eles que estarão com suas leis e ordens decretadas libertando as mulheres islâmicas do jugo opressor dos véus?

Com que direito podemos achar que elas o fazem por obrigação? São vários tipos e modelos, todos com apresentações bem específicas: Hijab , Niqab, Burca, Khimar, Chador, Shayla, Al-Amira, Tudong, Paranja. Em todas, o mistério do revela-ali, não revela-aqui dos véus. Aqui no Brasil logo enrolaríamos os panos e faríamos biquínis, cangas, puxadinhos e amarradinhos, moda. Lá é o que fazem. À sua moda.

Precisamos respeitar. Porque todos usamos véus. Quando queremos ficar isolados, fazemos isso: usamos véus. Quando queremos montar uma história, dissimular, mentir fazemos isso: usamos máscaras. Como a do menino Neymar por isso punido, por festejar com a cara dele mesmo, mas em hora imprópria. Ouviu a piadinha? “Ué¸ se não pode usar máscara o que (INSIRA AQUI O NOME DO JOGADOR QUE VOCÊ ODEIA) está fazendo em campo?

Mulheres, por exemplo, são capazes de se mimetizar muito melhor do que os homens. Se escondem até em suas bolsas grandes. Ou numa jogada de cabelo, uma puxada para trás, num salto alto, nas lentes dos óculos escuros, como os das madames das primeiras filas dos desfiles de moda. Quer coisa mais mascarada?

Também não é por menos que nós, mulheres, dançamos a Dança dos Sete Véus, camadas retiradas em um ritual colorido e de purificação, simbolizando a entrada da sacerdotisa no mundo dos mortos, sem apego a bens materiais. Embora seja um tesão de ver, seu significado é espiritual: a nudez.

Daí o naturismo ser tão legal. Tão importante e natural. Como seria bom que despir-se pudesse ser mais bem compreendido e protegido, como é na Alemanha, ou na Grécia, tomadas como exemplos. Garanto e creio que ninguém vai ser obrigado a aderir total. Só quem quiser. Pense: ao conhecer uma pessoa nua, o que ela vai poder te esconder? Você não terá a marca dos sapatos ou de sua camiseta como referência e avaliação. Já estará vendo todas as suas cicatrizes. Suas gorduras e seus ossos. Para baixo e para cima do umbigo. Admita.

Todos estamos cobertos. Repare que ninguém mais se olha nos olhos, um horror. E quando o fazemos – e acaso encontramos um raro olhar vindo na outra direção – somos quase capazes de corar. Ou morrer, de susto ou prazer, gaguejando naquele instante onde tantas informações se cruzam, elétricas, teleféricas, evidentes. Assim nascem os amores à primeira vista.

Quando pensei nos murinhos, véus e máscaras atrás do qual nos escondemos lembrei dos mais modernos. Mas também há os livros atrás dos quais e dentro dos quais nos procuramos. Há a pompa atrás da qual se escondem, em geral, os medíocres.

Não proponho que abandonemos radicalmente nossos confortáveis véus, ou as máscaras dos personagens escolhidos por cada um.

Proponho apenas que deixemos os olhos de fora, para que possamos nos ver. Depois, gradativamente, libertemos as bocas, as mãos, os pés, as pernas, o tronco, até que fiquemos nus – ou pelo menos, mais desarmados. Até porque não vai ter lugar pra guardar.

São Paulo, quase Páscoa. E a gente querendo que o mundo se acabe em chocolate.

Balas na cabeça. E sopapos na cara.

abril 10th, 2011

   

Juro. Corri para tudo quanto é lado. Me abaixei, desviei, tampei os ouvidos, cobri os olhos. Mas foi impossível não ter sido alvejada também duramente pela terrível sensação de impotência diante da loucura humana. Todos nós fomos baleados, principalmente na cabeça

O que fazer e o que pensar depois que acontecem desgraças como essa? Um homem marca um dia para morrer e matar. Marca o local. Escolhe as vítimas como se fossem tomates na feira. Explode seu vermelho para todos os lados. Prepara-se e executa.

Ouvi, e certamente você também, de um tudo nesses dias. Pior foi no dia mesmo, quando raros dos inúmeros chutes a gol não se mostraram nem ao mínimo coerentes. Desferidos sem dó por psicanalistas e analistas de recheio, minuto a minuto. Vi pedirem para as portas das escolas polícia, artilharia antiaérea, detector de metais, Raios-X e raios ultragamavioleta térmicos. A construção de um bunker, enfim. Aí fazem como sempre aqui: toda a tecnologia nas mãos de uma pessoa, comum e mal treinada. Que justamente nessa hora saiu para tomar um café, sabe como é? Quem mora em prédio, sabe.

Ouvi falarem que tudo era culpa do não-desarmamento – só que este foi resultado de um plebiscito popular – eu disse ple-bis-ci-to po-pu-lar, de 2005. Ou seja, o país decidiu. Fazer o quê? Os da paz total, onde me incluo, perderam. É assunto para bate-boca para mais de metro. E também não ia adiantar nada.

Ouvi falarem que o gajo era messiânico, islâmico, evangélico, fundamentalista e estranho, além de ter deixado crescer a barba. Vi só que encarnou um demônio, de carne e osso, com seus disparos de morte.

Estou ouvindo baterem a tecla no ato que ele gostava muito de Internet, clamando censura, na verdade, no fundinho, como se, se assim fosse, daquele jeito não teria sido.

Teve irresponsáveis falando em AIDs, homossexualismo latente e não resolvido, virgindade excessiva que teria subido para a cabeça, genética esquizofrênica, e criação por pais adotivos. Na carta que deixou – especialmente escrita, com cuidados gramaticais – daqui de longe vejo só a raiva do não ter vivido, e a busca de uma fantasia que deve ter sido trançada com seu próprio ódio, ano a ano, minuto a minuto.

Difícil entender como poderia ser evitado. Se ele tivesse falado com alguém. Falou? Tentou anunciar em alguma sala de bate-papo? De quem é o perfil no Orkut? Como treinou? Quantas vezes escreveu, leu, rasgou o seu testamento de morte? Onde o imprimiu? Acham que deveríamos ter previsto? Se nem quando as desgraças são previstas, escritas em versos e prosas, publicadas nos jornais, funciona! Alguém sempre diz a outro alguém que deveriam ser tomadas providências urgentes; e assim por diante, como no puro jogo de passa-anel de nossas infâncias.

Terá sido o que hoje até botam um nome pomposo? Bullyng? Ou a famosa e horrorosa, infelizmente uma tradição de afirmação social, a “azaração”. Duvido que algum de vocês, meus leitores adultos, não tenham sido alvo, passado por boas, pelo menos uma vez, apelidados de tudo quanto é coisa na escola! Na vida a gente encontra com seres do Mal em todas as idades e é assim que se vai vivendo. O ponto central, para mim, é lá atrás, nos primórdios: a índole, que se manifesta de alguma forma desde que somos crianças.

Sinceramente? Se eu fosse criança e tivesse assistido nem que fosse só os noticiários básicos, me esconderia debaixo da cama e ninguém mais me arrancava de lá. Se eu fosse adolescente, como o eram todas as vítimas, aí já não sei. Acho que pararia para refletir sobre as loucuras que passam – e como passam! – pela cabeça da gente nessa época, tentando filtrá-las e amadureceria um pouco mais. Entenderia que vida é para ser vivida. Que vida é frágil.

Mas nós, adultos, já vivemos para ver e viver coisas até piores, frutos das sandices humanas, incluindo as que o fazem pelo Poder. Soubemos e vimos gente ser queimada por ser estranha ou diferente; marcada como gado para identificação no matadouro, por professar seus credos; humilhada por ser natural – em alguma ou de qualquer coisa.

Alguns dias atrás havia escrito sobre essa sensação cinzenta e abstrata pairando por aí. Vinha um pouco das radiações do mundo. Atômico e em guerra, até com a natureza. Aí acontece um filme de horror desses, e seus trailers são espalhados por todo o país.

Como disse, tentei bravamente me esquivar dessas balas, mas, mais do que o ato em si, o caso suscitou foi toda uma série de perguntas, e todas sem resposta.

Espirrou muito medo. Medo da intolerância, e medo da explosão dela.

 

São Paulo, 2011.Rio de Janeiro, que 2011!

A paciência com o carne de pescoço

abril 4th, 2011

 

 (M.G.)

A vontade é dar descarga, apertar o botãozinho, ejetar, tapar. Difícil é ter paciência e aguentar tantas tolices ditas, tantas palavras disparadas junto com tiros e maledicências, tanta negatividade vinda dessa gente do mal, desses atrasos, dessas tranqueiras. A energia que emitem é uma poluição etérea, inferior, grudenta, que tenta atingir nossas almas

 

Desde que o mundo é mundo sempre tem ou aparece o cara espírito de porco, o toco, tosco, osso duro de roer. Ou a muiézinha bem zinha, atrasada, palpiteira no alheio, fofoqueira, moralista. O problema é que ultimamente todos eles têm posto as manguinhas de fora ao mesmo tempo. A gente não consegue mais nem tempo de respirar. Parece campeonato de asneiras. Mal acaba o asco, o enjoo de ouvir um, ficamos sabendo que apareceu outro verme. E eles se superam entre eles na vala da ignorância onde procriam, inclusive filhos.

Semana passada foi o auge. Como diria Gilberto Gil, chiclete eu misturo com banana e o meu samba vai ficar assim. Promiscuidade ocorreu foi entre o racismo e a homofobia de quinta categoria que grassaram violentamente nos discursos de dois parlamentares, o pastor Feliciano e o estúpido Bolsonaro. Pior, eles ainda estão lá lindos e louros no Congresso Nacional e já se passaram muito mais de 150 horas do ocorrido. Um escárnio. Como somos lentos… Tic-tac, tique, taque, tique, taque. Tic. Eles não deviam estar – como dizem alguns sábios das religiões africanas – onde não canta o galo e onde não há de cantar galinha?

Houve quem os defendesse com base na livre expressão, ou talvez por acaso pensar igual. OK. Ai-ai-ai ainda ter que explicar a diferença! Eles e todos podem pensar o que quiserem, claro. Desde que o façam sem ofender seus contrários com as sandices e bobagens que certamente nem eles mesmo acreditam de verdade, palhaços públicos eleitos, em busca de holofotes. Desde que fossem considerados, antes, como gente. Cidadã. Cidadão. 100%. Eles não são tão puristas?

Sabemos ouvir posições distintas. Mas racismo é racismo. Homofobia é homofobia. Isso não pode mudar sob o risco de perdermos completamente o pouco que nos resta do chão. Perigo é aí aparecer um salvador do mundo Zé Mané qualquer para guiar a turba ignara. Para tocar a flauta e ser seguido.

Andamos também cansados da falta de ação. Dessa coisa dispersa que virou a sociedade – cada um por si e, olha lá, Deus por todos, quem sabe? As coisas acontecem hoje, amanhã e vão piorando, depois, como rotina num constante torpor. Crianças massacradas? Mulheres espancadas? Jovens violentados? Preços que disparam? Imprudências que matam? Seguimos como bovinos ruminantes.

O descaso do funcionalismo público mata. E rouba inclusive o nosso rico tempinho, o de quem busca os parcos direitos conquistados. Os chefes são chefiados e, por sua vez, por outros chefes, abaixo dos chefes, os indicados. Ou concursados, que agora isso também virou desculpa esfarrapada para se eximir. E nada funciona bem nessa interdependência. Burocracia gera mais burocracia e custos. Há uma máquina disforme e monstruosa se alimentando de nossas vísceras e recursos, engordando, mas o leite de suas tetas gordas alimenta só poucos bezerros. Os buracos nas estradas, os empilhamentos nos hospitais, trapos de educação, falta isso, falta aquilo – essa parafernália toda comprova. E os focos de rebeldia gritam, mesmo que lá de longe, iluminados pelo fogo do que os rebeldes incendeiam.

Para nós que vivemos nas grandes cidades a situação também logo ficará insustentável. Da elite ao popular. Do físico ao jurídico. E no corpo a corpo. Mais próximos do suor uns dos outros, espremidos, no coletivo; ou paralisados, no particular. Quem está dentro quer sair; quem está fora, quer entrar. Um medo silencioso sempre, se o céu está escuro, se a rua está escura. E não há organização possível que limite essa rapidez com que as coisas vêm, aos borbotões, empurrando até serem aceitas, ou esquecidas porque eram só modinhas. São os novos comportamentos e, entre eles, esse egoísmo que está aí, latente.

Poucos olhos nos olhos.

Poucas gentilezas.

É uma sensação, uma coisa, um negócio que já dá para sentir em espaços mínimos, íntimos, como num elevador, ou abertos, como os campos. Os mais sensíveis já percebem no ar essa poluição diferente; diferente, porque imaterial, etérea. Mas pesada, em sua transparência; infernal, como e quando se impregna em nossos corpos, querendo tomar a nossa alma. Fique alerta. Use antídotos. Não deixe que se criem, nem que se espalhem.

São Paulo, sempre em campanha, por todos nós, 2011.